A popularização da inteligência artificial está permitindo que profissionais desenvolvam automações, aplicativos, sistemas e integrações dentro das empresas sem necessariamente recorrer aos processos tradicionais da área de tecnologia. É o que aponta o Panorama Vibe Coding Brasil, estudo realizado pela Skyone em parceria com o Grupo TNS.
Entre os 1.971 participantes da pesquisa, 50% afirmam que eles próprios ou suas empresas já criaram alguma automação, aplicativo, painel ou integração sem passar por um projeto formal de TI.
O movimento ganhou força recentemente: 43% dos entrevistados dizem ter realizado esse tipo de iniciativa nos últimos seis meses, enquanto 7% afirmam que a prática já existia anteriormente.
Entre os profissionais que participaram dessas criações, 85,2% fizeram o trabalho sem envolvimento formal da área de tecnologia. Em 51,1% dos casos, a solução foi desenvolvida individualmente pelo próprio profissional. Outros 34,1% afirmam que a criação foi feita pela equipe, também sem participação oficial da TI. Apenas 14,8% tiveram apoio pontual do setor.
“A IA derrubou a barreira de entrada para criar soluções, mas isso também significa que aplicações podem nascer e ganhar escala antes de passar pelos controles tradicionais da empresa. Quando uma ferramenta começa a acessar dados corporativos, ser usada por várias pessoas ou sustentar um processo relevante, deixa de ser apenas um experimento. É aí que a falta de visibilidade vira um problema real de governança”, afirma Felipe Wasserman, diretor de Marketing e Growth da Skyone.
Regras ainda são pouco consolidadas
O avanço dessa autonomia ocorre em um cenário em que as políticas internas para utilização corporativa de inteligência artificial ainda não estão consolidadas em parte das organizações. Para 42,9% dos participantes, suas empresas não possuem orientações sobre quais dados corporativos podem ser inseridos em ferramentas de IA.
Apenas 26,3% trabalham em organizações com regras claras e formalizadas. Outros 18,6% afirmam que existem diretrizes, mas elas são mal comunicadas, enquanto 12,2% não souberam informar sobre a existência dessas regras.
O uso das ferramentas também ocorre de maneira descentralizada. Para 26,8% dos entrevistados, cada profissional escolhe e utiliza soluções de IA por conta própria, sem orientação oficial. Outros 24,2% dizem que o uso é permitido, mas cada área seleciona suas próprias ferramentas.
Em 18,8% das empresas, há incentivo à utilização de IA, mas ainda não existem diretrizes estabelecidas. Apenas 25,1% relatam um cenário no qual a organização incentiva formalmente o uso da tecnologia e possui regras claras.
Perfis de adoção
O levantamento identifica ainda três perfis de adoção da inteligência artificial. O grupo mais numeroso, classificado como “criação com orientação fragmentada”, representa 42,7% da amostra.
Nesse segmento, 59,2% dos participantes afirmam já ter criado alguma solução. Ao mesmo tempo, 60,9% dizem que suas empresas não possuem diretrizes sobre o uso de dados, enquanto 33,1% relatam que as regras existem, mas são mal comunicadas. Além disso, 86,4% das soluções desenvolvidas nesse grupo foram criadas sem participação formal da TI.
Para a Skyone, os dados indicam que a discussão sobre vibe coding e Shadow IT 2.0 deve ir além da decisão de simplesmente permitir ou restringir essas práticas. O estudo propõe um modelo de atuação dividido em seis etapas: identificar o que já está sendo criado, estabelecer limites para dados e segurança, capacitar profissionais, disponibilizar ambientes controlados para testes, aproximar as áreas de negócio e tecnologia e definir quando um protótipo deve ser transformado em uma solução corporativa.
Governança e segurança
Entre as medidas sugeridas está o mapeamento das soluções que já foram desenvolvidas dentro das empresas, identificando quais processos atendem, quais dados utilizam, quem depende delas e quais níveis de acesso são necessários.
O estudo também recomenda estabelecer orientações objetivas sobre dados, ferramentas autorizadas e situações que demandam avaliação técnica. Outra frente envolve a capacitação dos profissionais que já utilizam IA para desenvolver soluções, com conteúdos sobre uso responsável de modelos de linguagem, proteção de dados, validação de respostas, controle de acesso, documentação e identificação de riscos.
A criação de ambientes controlados de experimentação, como sandboxes, é outra recomendação do levantamento. A ideia é permitir testes e desenvolvimento sem que os profissionais precisem trabalhar diretamente com dados de produção.
“A questão deixou de ser se as pessoas vão usar IA para construir, pois elas já estão construindo. A oportunidade para as empresas é transformar essa energia de experimentação em inovação sustentável, criar ambientes nos quais as pessoas possam testar e desenvolver soluções, mas com limites claros para dados, segurança e governança”, afirma Wasserman.
Segundo o executivo, esse cenário também modifica o papel das equipes de tecnologia, que passam a atuar não apenas no atendimento de demandas, mas também na transformação de experimentos desenvolvidos internamente em soluções que possam ser utilizadas de maneira segura e escalável.






