A expansão dos data centers no Brasil, impulsionada pela demanda por inteligência artificial e por novos incentivos fiscais, levanta questões sobre os impactos ambientais, os benefícios econômicos e a segurança das informações armazenadas nessas estruturas. Embora o uso de fontes renováveis de energia seja um dos critérios de sustentabilidade do setor, esse fator, isoladamente, não garante que os empreendimentos tragam benefícios efetivos ao país.
Diante desse cenário, o professor Leonardo David Quintiliano, da Faculdade ESEG, instituição do Grupo Etapa, desenvolveu uma pesquisa que propõe ampliar os critérios utilizados para avaliar esses empreendimentos. O modelo considera, além do consumo de energia e água, aspectos como proteção de dados, soberania digital e impactos econômicos e sociais. O trabalho foi apresentado em 9 de outubro, durante o AI4SDG 2026, evento científico internacional realizado em Liubliana, na Eslovênia.
“Os data centers são essenciais para o desenvolvimento da inteligência artificial, mas a sustentabilidade dessas estruturas não pode ser medida apenas pela eficiência energética ou pelo consumo de água. É preciso avaliar também quem controla os dados, quais são as garantias de segurança e quais benefícios econômicos e sociais o empreendimento efetivamente proporciona”, afirma Quintiliano.
Um empreendimento, por exemplo, pode utilizar energia renovável e, ao mesmo tempo, pressionar os recursos hídricos da região onde está instalado ou apresentar vulnerabilidades na proteção de dados. Também é necessário avaliar o retorno para as comunidades locais, incluindo a criação de empregos qualificados, a contratação de fornecedores da região e o acesso à infraestrutura tecnológica.
Modelo reúne três dimensões de avaliação
Para auxiliar nessa análise, a pesquisa propõe duas ferramentas complementares: a Avaliação de Impacto da Sustentabilidade e o Índice de Responsabilidade de Data Centers.
O modelo reúne indicadores em uma pontuação de zero a 100, distribuídos em três dimensões: sustentabilidade ambiental; segurança e soberania digital; e impactos econômicos e sociais. A intenção é estabelecer parâmetros verificáveis que possam apoiar empresas e autoridades públicas na avaliação dos projetos.
De acordo com o professor, a análise conjunta permite identificar situações em que um empreendimento apresenta bons resultados ambientais, mas deixa dúvidas sobre a proteção das informações ou o controle dos dados. A proposta também busca relacionar a concessão de incentivos públicos a resultados mensuráveis e benefícios concretos para a sociedade brasileira.
O método prevê restrições que podem impedir uma avaliação positiva, independentemente da pontuação total obtida. Entre elas estão a ausência de licenças obrigatórias, falhas críticas de segurança e a falta de transparência sobre o controle de informações estratégicas.
A intenção é oferecer subsídios para a formulação de políticas públicas e para a análise de projetos antes da aprovação de empreendimentos ou da concessão de benefícios fiscais. O índice, contudo, ainda está em fase de proposta acadêmica e precisa passar por testes e validação empírica antes de sua aplicação prática.
Pesquisa foi apresentada em evento internacional
O estudo integrou a programação do AI4SDG 2026, realizado durante a 29ª edição da International Multiconference Information Society. O encontro reuniu pesquisadores de diferentes países para discutir temas como inteligência artificial, desenvolvimento sustentável, governança tecnológica e proteção de direitos.
A programação contou com a participação do Centro de Inteligência Artificial e Aprendizado de Máquina da Universidade de São Paulo (CIAAM-USP), que mantém um acordo de cooperação acadêmica com a Faculdade ESEG desde junho de 2026.
Doutor em Direito do Estado pela USP e pesquisador na área de regulação da inteligência artificial, Quintiliano desenvolve estudos sobre políticas públicas, tecnologia e governança digital. A pesquisa busca contribuir para o debate sobre como conciliar a expansão da infraestrutura de IA no Brasil com a proteção ambiental, a segurança das informações e o desenvolvimento econômico.






