Finalizado o segundo turno das Eleições de 2026, abre-se um novo momento para o país. Não cabe a mim interpretar as escolhas de milhões de brasileiros nem atribuir o resultado das urnas a uma única questão. Mas, como empresário que trabalha diretamente com governos e acompanha de perto alguns dos desafios da segurança pública, há um aspecto desse processo que me parece difícil ignorar: existe uma cobrança muito concreta da população por respostas melhores nessa área.
Essa preocupação não começou na campanha. Pesquisas de opinião vêm colocando violência e segurança pública entre os principais problemas apontados pelos brasileiros. O tema aparece com força entre diferentes posicionamentos políticos, o que ajuda a mostrar que não estamos diante de uma demanda restrita a um grupo específico. Outros levantamentos também indicam que a violência é percebida como um problema de dimensão nacional e que seu enfrentamento deve envolver diferentes níveis de governo.
Minha relação com esse assunto, no entanto, começou muito antes de trabalhar com tecnologia para o setor público. Quando vim morar no Brasil, minha casa foi invadida e minha família esteve em risco. Também vivemos, naquele momento, a dificuldade de obter uma resposta compatível com a urgência da situação. Foi uma experiência marcante e que, com o tempo, contribuiu para a forma como passei a enxergar um problema que afeta tantas famílias brasileiras.
Anos depois, trabalhando ao lado do poder público, passei a compreender também o outro lado dessa equação. Entre o pedido de ajuda e a espera de uma resposta, existe uma operação extremamente complexa que muitas vezes o cidadão desconhece: alguém precisa receber e compreender a ocorrência, separar as informações relevantes, localizar o chamado, definir prioridades, acionar os recursos adequados e fazer com que tudo isso chegue rapidamente aos profissionais responsáveis pelo atendimento.
O Brasil tem gestores experientes e profissionais de segurança que conhecem profundamente as realidades em que trabalham. A convivência com governos me mostrou, inclusive, o quanto existe de conhecimento acumulado dentro do setor público. O desafio é fazer com que esse conhecimento seja acompanhado por processos e ferramentas capazes de responder a uma criminalidade cada vez mais complexa e a uma população que espera serviços mais rápidos e eficientes.

É nesse ponto que acredito que a tecnologia pode fazer uma diferença concreta. Uma pessoa que procura ajuda deveria conseguir fornecer, de maneira simples, informações que contribuam para compreender melhor o que está acontecendo. Dependendo da ocorrência, imagem, localização e outros elementos disponíveis naquele momento podem ajudar uma central a qualificar o chamado, fazer uma triagem melhor e encaminhar a resposta de maneira mais eficiente. Do outro lado, quem coordena uma operação precisa receber essas informações de forma organizada e útil, e não apenas acumular mais dados em mais um
sistema.
Na segurança pública, a inteligência artificial precisa deixar de ser tratada como uma promessa para o futuro e mostrar resultados concretos no presente. Seu papel não é substituir o julgamento humano, mas ajudar quem está na linha de frente a tomar decisões melhores e mais rápidas.
Isso significa organizar grandes volumes de informações, identificar o que é prioritário em meio a situações de crise e oferecer aos profissionais de emergência os dados necessários para agir com precisão. Em um atendimento no qual cada segundo pode fazer a diferença, o valor da tecnologia está na sua capacidade de facilitar o trabalho das equipes e tornar a resposta à população mais rápida e eficiente.
Por isso, modernização não pode ser confundida com simplesmente aquisição de tecnologias. Um novo recurso que não conversa com a operação existente pode acrescentar complexidade em vez de eliminá-la. O ganho aparece quando o cidadão, a central de atendimento e as equipes responsáveis pela resposta conseguem estar mais bem conectados, respeitando os protocolos e a estrutura definida por cada órgão público.
Esse aprendizado é particularmente importante para quem desenvolve soluções para governos. Não cabe a uma empresa privada chegar a uma secretaria ou a uma força de segurança presumindo conhecer melhor a operação do que os profissionais que trabalham ali todos os dias. Nosso papel é outro: entender o problema, adaptar a tecnologia à realidade do serviço público e ajudar o gestor a executar melhor aquilo que ele já identificou como necessário.

Também não existe modernização responsável sem governança. Quando uma solução envolve dados, localização, imagens ou informações relacionadas a uma ocorrência, questões como privacidade, segurança, disponibilidade do serviço e possibilidade de auditoria precisam fazer parte do projeto desde o início. Da mesma forma, governos precisam conseguir avaliar se aquilo que foi implementado está efetivamente melhorando o atendimento, reduzindo etapas ou aumentando a capacidade de resposta. Tecnologia no setor público precisa ser mensurável porque seu objetivo final não é demonstrar inovação,
mas prestar um serviço melhor.
Experiências internacionais mostram que governos vêm incorporando cada vez mais tecnologia, dados e integração ao planejamento de suas estruturas de segurança. O aspecto que considero mais relevante nesses casos não é um equipamento ou uma plataforma em particular. É a compreensão de que modernização precisa fazer parte da operação e evoluir com ela. A tecnologia funciona melhor quando fortalece profissionais e instituições, em vez de tentar substituí-los.
É por isso que vejo o momento posterior às eleições menos como uma oportunidade para avaliar quem ganha ou quem perde e mais como o início de uma nova etapa de cobrança. A população já vinha demonstrando preocupação com a violência antes de chegar às urnas. Agora, governos de diferentes estados, municípios e orientações políticas terão diante de si o mesmo desafio: transformar essa preocupação em resultados percebidos pelo cidadão.
Isso exigirá investimento em pessoas, gestão, integração e tecnologia. Exigirá também diálogo entre governos e empresas capazes de compreender as particularidades do setor público. No fim, há uma medida bastante simples para avaliar qualquer avanço nessa área: quando alguém precisar de ajuda, o Estado estará mais preparado para entender o que está acontecendo e responder com rapidez e eficiência?
É essa capacidade de resposta que, na minha visão, deveria orientar a próxima etapa da modernização da segurança pública brasileira.
– Jason Sprenger é economista, fundador e CEO da VIU Tecnologia






