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Seu próximo ídolo será gerado por IA

Luis Veloso analisa como algoritmos estão moldando os novos sucessos musicais e revela por que essa lógica pode transformar todo o entretenimento digital

Tempo de leitura: 4 minutos


Em julho, a Blow Records explodiu no Instagram e no TikTok ao misturar letras icônicas do funk com batidas inspiradas nos anos 70 e 80. Em menos de um mês, o projeto criado por uma única pessoa e inteiramente desenvolvido com ferramentas de inteligência artificial ultrapassou a marca de 1 milhão de ouvintes mensais. É impressionante: em tempo recorde, uma criação 100% gerada por IA alcançou o status de estrela pop.

E a Blow não está sozinha nessa revolução. Ela acompanha o movimento de outras sensações recentes, como Marisa Maiô, a apresentadora digital desenvolvida com o Google Veo3, e os incontáveis reels produzidos por IA que tomaram conta dos nossos feeds. O que essas criações têm em comum? Não são apenas conteúdos. São ícones culturais fabricados por algoritmos.

Outros exemplos ajudam a entender a força dessa tendência. O rapper virtual FN Meka assinou com uma grande gravadora antes de ser cancelado. A influenciadora Lil Miquela desfilou para marcas como Prada e lançou músicas no Spotify. O grupo virtual K/DA, da Riot Games, estreou com apresentações em realidade aumentada para milhões de fãs. E a música Heart on My Sleeve, criada com vozes falsas de Drake e The Weeknd, viralizou e obrigou a indústria fonográfica a correr atrás do prejuízo. O fenômeno é global e está só começando.

Todo esse boom de músicas como o sugestivo “Popotão Grandão” ou “Predador de P**” não está desconectado de um movimento maior, no qual a IA passou a fazer parte estrutural do entretenimento. A fórmula é clara: conteúdos com alto potencial de viralização + vídeos curtos com refrões chiclete+forte apelo visual e lírico + inspiração em estéticas que já funcionaram

A Blow Records acerta em cheio: usou batidas dos anos 70 e 80 que já se provaram eficazes, resgatou letras dos anos 2000 e 2010 com apelo nostálgico, criou trechos perfeitos para reels e dancinhas virais e apostou na irreverência como identidade Cada época teve sua fórmula mágica para criar hits. Essa parece ser a nossa.

Mas vamos além: o que acontece quando Marisa Maiô e a Blow Records se encontrarem? Ou seja, quando os personagens tiverem seus próprios hits. Estamos falando de universos inteiros. Esses “artistas” vão poder contar histórias, postar sobre seus dias, engajar bases de fãs, fazer stories, reels, publis e até feats com outros personagens. E shows? Também.

Agora imagine isso aliado ao que Spotify, Instagram e TikTok já sabem sobre você. Já percebeu como o Spotify acerta nas playlists? Já notou como é difícil sair de um looping de reels? Pois bem, agora imagine esse conhecimento todo sendo usado para fabricar o ídolo perfeito, aquele que você nem sabia que queria, mas que vai te conquistar.

A IA traz um diferencial o: a capacidade de criar narrativas sob medida, ajustadas ao gosto de cada público. Sem brigas de ego, sem bandas se separando, sem términos, overdoses ou doenças. Tudo calculado para agradar.

Mario Vargas Llosa, em A Civilização do Espetáculo, já apontava como o entretenimento se tornou o centro da vida cultural contemporânea. A arte, o pensamento crítico e até o jornalismo passaram a disputar espaço com a diversão rápida, digerível e superficial. O que ele talvez não imaginasse é que agora, esse espetáculo pode ser inteiramente gerado por máquinas, planejado por algoritmos para caber exatamente no nosso desejo.

É justo pensar que, se os heróis da década de 90 morreram de overdose, os ídolos da década de 2020 serão gerados por IA. Muito provavelmente, você vai acompanhar um artista feito de zeros e uns nos próximos anos. E mais, é bem possível que tragam de volta ídolos antigos, em versões remixadas, rejuvenescidas e hipersegmentadas.

Claro que tudo isso vai gerar uma onda de saudosistas, críticos e puristas dizendo que “isso não é arte”, que “não é real”, que “não tem alma”. E sim, haverá debates éticos importantes. Mas, na prática, isso vai importar pouco, porque o movimento é inevitável.O ponto é simples: isso será entretenimento. E as pessoas pagam, como sempre pagaram, por aquilo que emociona, diverte e engaja. Esse é só mais um aspecto da revolução silenciosa, e irresistível, que a inteligência artificial está promovendo nas nossas vidas.

Luis Veloso é CRO da Morada.ai, propetch de Inteligência Artificial (IA) para o mercado imobiliário

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