Uma nova pesquisa da consultoria estratégica Página 3, indica um aumento da dependência de IA entre os brasileiros. O levantamento indica que 63% dos entrevistados já pediram para uma IA escrever mensagens pessoais, e quase metade prefere recorrer a modelos de IA em vez de seres humanos antes de tomar decisões.
O levantamento faz parte do estudo “Mais do Mesmo”, que analisa como a combinação entre excesso de estímulos, lógica algorítmica e a delegação crescente do pensamento — agora também para ferramentas de inteligência artificial — está reorganizando a forma como indivíduos constroem suas identidades.
Segundo o estudo, a repetição constante de conteúdos e comportamentos, com pequenas variações, contribui para a perda de contato com características humanas como sensibilidade, pensamento crítico, curiosidade e capacidade de confronto.
“Quando tudo aquilo com que entramos em contato se torna uma espiral de repetições disfarçadas de novidade, enfraquecemos a nossa personalidade, nossos critérios e o senso de realidade”, afirma Sabrina Abud, cofundadora da Página 3 e diretora do estudo.
Segundo o estudo, os impactos não se restringem ao plano individual. A pesquisa aponta que, à medida que o repertório cultural se estreita e a reflexão passa a ser delegada, o debate público tende a se empobrecer. Esse processo reduz a capacidade de discordância, dificulta conversas complexas e limita a produção de visões originais, abrindo espaço para consensos artificiais e comportamentos de manada. Instituições como escolas e empresas também são citadas como agentes que reforçam esse ciclo ao priorizar alinhamento e punir a divergência.
“Já estamos assistindo pessoas que terceirizam partes inteiras do processo de pensar. Com a entrada dos agentes de IA em nossas vidas, esse cenário tende a piorar, já que a delegação da ação e do pensamento será muito maior”, destaca Georgia Reinés, cofundadora da consultoria.

Apesar do diagnóstico crítico, o estudo evita um tom fatalista. De acordo com a Página 3, é possível reconstruir o pensamento próprio por meio da ampliação do repertório cultural, da retomada de conversas mais longas, do exercício da escrita e da fala como ferramentas de organização interna e da recuperação do tempo necessário à reflexão, hoje comprimido pela lógica de notificações e atalhos cognitivos.
“Ser você mesmo não é ser oposição ao mundo. É conseguir pensar por conta própria. O coletivo precisa de indivíduos críticos para não virar um rebanho; e o indivíduo precisa do coletivo para não perder o sentido da própria existência”, conclui Abud.
Entre outros dados destacados pelo estudo, 63% dos brasileiros afirmam que as pessoas eram mais autênticas e diferentes entre si no passado, enquanto 49% dizem já ter recebido mensagens que pareciam ter sido geradas por inteligência artificial. Além disso, 76% relatam que está cada vez mais difícil conversar e se relacionar com os outros.
Quando questionados sobre o perfil dos melhores profissionais do futuro, os entrevistados apontaram como principais características a capacidade de analisar criticamente informações trazidas por IAs (60%), interpretar antes de agir (49%), pensar e criar de forma única (41%) e, em menor proporção, elaborar os melhores prompts (39%).






