A rotatividade no setor de tecnologia, que já registrava níveis de quase 40% em períodos anteriores, segundo dados do CAGED, é ainda mais crítica entre profissionais recém-contratados e revela um problema mais profundo do que a falta de mão de obra qualificada. O setor convive com uma crise de confiança nos processos de recrutamento. Enquanto as empresas insistirem em modelos longos, técnicos demais e desconectados da realidade de negócio, continuarão perdendo talentos em um mercado já marcado pelo desequilíbrio entre oferta e demanda, gerando retrabalho, frustração e custos crescentes.
Esse cenário se torna mais crítico quando observamos o panorama nacional. Segundo estudo da Google em parceria com a Brasscom, o Brasil deve registrar um déficit de 530 mil profissionais de tecnologia até o fim de 2025, ao mesmo tempo em que forma apenas cerca de 53 mil tecnólogos por ano. Ou seja, há muito mais vagas disponíveis do que pessoas qualificadas para ocupá-las. Ainda assim, os processos seletivos permanecem lentos e excessivamente complexos, com casos em que o fechamento de vagas leva de 60 a 90 dias. Em vez de reduzir riscos, o acúmulo de etapas e testes afasta bons candidatos, que naturalmente migram para empresas com jornadas mais simples, claras e respeitosas.
Uma justificativa frequentemente apresentada para modelos mais extensos é a necessidade de garantir precisão na escolha. No entanto, essa lógica não se sustenta quando as etapas aplicadas não refletem a realidade da função. Relatos recorrentes em comunidades de tecnologia mostram um aumento da insatisfação com testes longos, gratuitos e desconectados do cotidiano de trabalho. De acordo com o Relatório Setorial da Brasscom, os investimentos em Tecnologias da Informação e Comunicação devem alcançar R$ 729 bilhões até 2027, impulsionando a criação de até 147 mil empregos formais por ano. Nesse ritmo, manter processos seletivos lentos e burocráticos deixa de ser uma forma de controle e se torna um entrave competitivo.
O comportamento dos profissionais também evidencia que esse modelo não funciona mais. Em um mercado aquecido, talentos buscam propósito, aprendizado e ambientes saudáveis, e não experiências desgastantes que se arrastam por semanas. A ideia de que rigor excessivo leva a melhores contratações desconsidera que retenção depende de alinhamento cultural, clareza sobre expectativas e sensação de pertencimento desde o início. Sem esses elementos, mesmo candidatos aprovados tendem a abandonar a vaga nos primeiros meses, alimentando o ciclo de turnover.
Diante desse contexto, repensar o recrutamento não é apenas uma questão operacional. É uma mudança de mentalidade. Selecionar talentos precisa ser visto como parte estratégica da cultura organizacional. Processos mais objetivos, humanizados e conectados às competências reais reduzem o tempo de contratação e aumentam a probabilidade de encaixe. Empresas que conseguem comunicar sua cultura e expectativas desde o início saem na frente na disputa por profissionais disputados.
O setor de tecnologia vive um momento de expansão acelerada e escassez contínua. Se as empresas desejam atrair e manter talentos, precisam abandonar a crença de que complexidade gera qualidade. A solução passa por processos mais claros, criteriosos, mas também mais humanos. Em um mercado pressionado por velocidade, eficiência e inovação, transformar o recrutamento em uma experiência transparente e alinhada ao propósito organizacional não é apenas desejável. É decisivo para construir equipes estáveis, produtivas e preparadas para os desafios dos próximos anos.
– Rodrigo Curcio é fundador e CEO da HumanAz






