Economia digital

Proibição de IA personalizada pode gerar perda de R$ 855 bilhões ao Brasil em dez anos, aponta estudo

Análise do Reglab estima impacto negativo de 1,64% no PIB em cenário hipotético de restrição total à personalização

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Um cenário de proibição total da inteligência artificial personalizada poderia gerar uma perda acumulada de R$ 855 bilhões para a economia brasileira ao longo de dez anos. A estimativa consta do estudo A Dimensão Econômica da Personalização, elaborado pelo centro de pesquisas Reglab, especializado em tecnologia e regulação.

Acesse a pesquisa completa neste link.

O trabalho avalia os efeitos econômicos de restrições ao uso de IA personalizada e integra a agenda do Reglab voltada à análise da tecnologia para além do debate regulatório, considerando impactos sobre competitividade industrial e desenvolvimento econômico. Trabalhos anteriores do centro já haviam examinado efeitos regulatórios da IA sobre o setor produtivo e soluções técnicas para seu uso responsável.

O estudo parte do conceito de personalização como o processo de adaptação de funcionalidades, interfaces ou conteúdos de sistemas a indivíduos. Essa adaptação pode ocorrer tanto por meio do uso da IA para personalizar produtos e serviços — como a geração de conteúdo textual — quanto pela personalização do próprio sistema de IA, ajustado às preferências e ao vocabulário dos usuários.

De acordo com a literatura econômica citada na pesquisa, a vedação ao uso de IA para personalização poderia provocar um choque negativo de 1% na produtividade. Na prática, isso significaria que uma hora de trabalho que antes gerava 100 unidades de produção passaria a gerar 99.

A partir desse impacto inicial, o Reglab simulou os efeitos macroeconômicos da restrição sobre a economia brasileira. Os resultados indicam que, em um cenário hipotético de proibição, o Produto Interno Bruto (PIB) do país sofreria uma retração de 1,64% ao longo de dez anos. No acumulado do período, a perda estimada alcançaria R$ 855 bilhões, efeito superior ao choque inicial de produtividade devido às interações entre os setores econômicos.

Segundo João Ricardo Costa Filho, coordenador do Núcleo de Economia Aplicada do Reglab, o cenário analisado é extremo, mas serve como referência para o debate. “É importante sabermos onde a régua começa e termina, para então conseguir medir os efeitos de restrições intermediárias”, afirma.

O cálculo considera impactos diretos e indiretos, utilizando um modelo de equilíbrio geral que incorpora as interdependências entre setores produtivos. Dessa forma, choques em segmentos como a indústria automobilística tendem a se propagar para áreas relacionadas, como metalurgia e refino de petróleo. Setores com maior grau de interconexão, como agropecuária, metalurgia e refino, seriam os mais afetados.

Para Pedro Henrique Ramos, diretor-executivo do Reglab e um dos autores do estudo, os dados indicam que a personalização tem papel estrutural na economia. “O estudo demonstra que a personalização é mais do que uma funcionalidade de conveniência, sendo uma infraestrutura essencial para produtividade”, diz.

Ramos acrescenta que o debate regulatório deve considerar diferentes dimensões. “O estudo mostra a importância de envolver no debate regulatório setores como indústria e agropecuária, além de trazer análises de impacto que considerem questões como efeitos de restrições sobre a produtividade e sobre a atividade econômica como um todo”, afirma.

Segundo o diretor-executivo, a própria pesquisa ressalta que a discussão sobre IA personalizada precisa ir além da análise econômica, incorporando aspectos como o tipo de personalização realizada, quem é afetado, quais dados são utilizados, sua origem e a forma como essas práticas são comunicadas aos usuários.

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