Opinião

A IA pode melhorar a relação entre médico e paciente

Em vez de afastar médicos e pacientes, a IA pode organizar o histórico de saúde e tornar as consultas mais produtivas

Tempo de leitura: 2 minutos


Existe uma imagem quase inevitável quando se fala em inteligência artificial na saúde: máquinas assumindo o espaço das pessoas, consultas cada vez mais mediadas por telas e um atendimento mais rápido, porém mais distante. Essa é uma preocupação legítima. Mas talvez não estejamos considerando os lados positivos nessas análises.

Em vez de tornar a medicina mais impessoal, a IA pode, em alguns contextos, ajudar a tornar o encontro entre médico e paciente mais produtivo. A escuta, a conversa e o julgamento clínico continuam sendo do médico, mas a tecnologia pode auxiliar a reconstruir informações da saúde do paciente que deveriam estar disponíveis para um melhor diagnóstico.

A verdade é que grande parte da qualidade de uma consulta começa antes do paciente entrar no consultório. Começa pela capacidade de contar o que aconteceu, lembrar quando determinado sintoma apareceu, saber quais medicamentos foram usados, recuperar exames anteriores e perceber o que mudou ao longo do tempo. O que costuma acontecer, porém, é um histórico de saúde espalhado entre papéis, PDFs, aplicativos, e-mails e a memória do paciente.

Estudos em atenção primária mostram que as consultas tendem a funcionar melhor quando paciente e médico chegam preparados e conseguem estabelecer, logo no início, quais são as prioridades daquele encontro, especialmente para pacientes com problemas crônicos, porque entre os obstáculos mais frequentes está o tempo limitado de consulta.

É nesse ponto que a IA entra. Imagine um paciente que chega à consulta com dezenas de exames feitos por anos. Um resultado isolado pode dizer pouco, já uma sequência de resultados pode revelar uma condição específica de saúde. Ferritina, hemoglobina, glicemia, colesterol ou outros indicadores ganham outra dimensão quando vistos cronologicamente.

Ferramentas de IA podem ajudar a ler, estruturar e relacionar esse conjunto de dados, apresentando ao usuário uma visão mais clara da própria trajetória. Em vez de procurar manualmente, entre documentos dispersos, quando um indicador subiu ou caiu, o paciente pode ter uma visualização organizada da evolução e chegar à consulta com isso em mãos.

A Organização Mundial da Saúde (OMS) defende que sistemas de IA mantenham o ser humano no controle das decisões de saúde, e é exatamente o que proponho com essa ideia. A partir de uma base organizada de informações sobre o paciente, a IA pode transformar um amontoado de documentos em uma visão mais inteligível do histórico de saúde para ele e para o médico.

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