O Brasil é um dos líderes da transição energética mundial. Só no ano passado, a matriz elétrica nacional alcançou a invejável marca de 88% de geração renovável e de baixa emissão. Essa vantagem competitiva pode abrir caminho para que o país se torne uma potência no mercado global de inteligência artificial. Essa é a avaliação de Elaine Coimbra, vice-presidente de marketing da Associação Brasileira de Inteligência Artificial (ABRIA), nossa entrevistada desta semana da série especial O Futuro da IA no Brasil. Ela destaca que a energia limpa brasileira já atrai grandes multinacionais e pode transformar o país em exportador de serviços digitais e referência em “IA verde“.
Como você vê o papel do Brasil no mercado global de IA hoje e qual deve ser o peso do país nesse setor nos próximos anos?
O Brasil tem um potencial imenso para ocupar espaço relevante no mercado global de inteligência artificial. Nossa matriz energética poderia dar espaço a implantação de data centers com energia limpa. Isso é motivo de interesse crescente de gigantes como Amazon, Microsoft e Google em instalar data centers sustentáveis no país, o que já sinaliza que temos ativos estratégicos. No entanto, ainda estamos em fase de consolidação.
O Plano Brasileiro de Inteligência Artificial (PBIA 2024-2028), que prevê R$ 23 bilhões em investimentos, mostra um compromisso real com inovação, mas precisamos ver resultados palpáveis. O ponto crítico será a regulamentação, PL 2338/2023, aprovada no Senado. Se ela equilibrar proteção aos cidadãos com segurança jurídica para empresas, sem sufocar startups e PMEs, o Brasil pode se posicionar como exportador de serviços digitais e liderança em IA verde, aproveitando sua vantagem energética.
O que ainda falta para o Brasil avançar mais nesse mercado e aproveitar plenamente as oportunidades atuais?
O desafio é que, apesar da qualidade dos nossos profissionais e do ecossistema em expansão, ainda falta um incentivo estruturado em pesquisa, desenvolvimento e inovação. Muitos talentos saem do país porque encontram mais oportunidades lá fora.
Outro obstáculo é a conectividade desigual, que deixa parte da população de fora da transformação digital. A Política Nacional de Educação Digital (PNED, Lei 14.533/2023) é um passo importante, mas precisa sair do papel rapidamente. Para avançar, precisamos de incentivos fiscais que estimulem empresas a investir em IA e programas robustos de requalificação para evitar a fuga de cérebros e preparar a população para o mercado de trabalho digital.

Quais são os maiores desafios na formação de profissionais para atuar com IA no país e como superá-los?
Na formação de profissionais, o problema não está apenas na oferta limitada de cursos especializados. Temos currículos defasados e poucas iniciativas de requalificação contínua. Isso cria um vácuo que faz com que profissionais formados aqui sejam seduzidos por empresas e universidades internacionais.
A saída não é fácil passa por investir pesado em capacitação digital, criar hubs de inovação que unam universidades, governo e empresas. Esse esforço precisa incluir as populações mais vulneráveis, para que não se crie um abismo social ainda maior entre quem domina tecnologia e quem não tem acesso.
Quais são as principais iniciativas ou inovações voltadas ao mercado de IA que sua associação está desenvolvendo atualmente?
No caso da ABRIA, nosso trabalho é justamente democratizar o acesso ao conhecimento em inteligência artificial. A ABRIA Academy é hoje um dos nossos pilares: queremos educar não apenas executivos e técnicos, mas também professores, estudantes e a sociedade em geral. Apostamos em alfabetização digital, uso ético da tecnologia e aplicação prática em áreas estratégicas. Acreditamos que o Brasil pode deixar de ser apenas consumidor e se tornar protagonista no mercado global de IA desde que educação e inovação caminhem de mãos dadas.







