O Brasil reúne condições para se tornar um polo atrativo em inteligência artificial, mas ainda enfrenta barreiras para transformar esse potencial em liderança global. Essa é a avaliação de Jenifer Ferraz, Head de Produto e Negócios do Grupo Irrah Tech, nossa entrevistada de hoje (21) na série O Futuro da IA no Brasil. Segundo a executiva, o avanço da IA no país depende de maior investimento em pesquisa e desenvolvimento, da formação de profissionais capazes de aplicar IA em problemas reais e da implementação efetiva do Plano Brasileiro de Inteligência Artificial.
Como você vê o papel do Brasil no mercado global de IA hoje — e qual deve ser o peso do país nesse setor nos próximos anos?
O Brasil tem se destacado como um ator emergente no cenário global de IA. Apesar de ainda não liderar em ranking de patentes ou publicações científicas, há expectativas em função de sua matriz energética majoritariamente renovável e da infraestrutura digital em constante evolução — essas características tornam o país um ambiente atrativo para investimentos em data centers e iniciativas em pesquisa aplicada.
Num horizonte otimista, espera-se que o Plano Brasileiro de Inteligência Artificial (PBIA 2024–2028) seja efetivamente colocado em prática, impulsionando a adoção de IA por meio do fortalecimento da infraestrutura tecnológica, políticas públicas, do fomento à pesquisa e da consolidação de modelos de governança.
O que ainda falta para o Brasil avançar mais nesse mercado e aproveitar plenamente as oportunidades atuais?
Para que o Brasil avance de forma consistente em inteligência artificial, é fundamental reforçar nossa capacidade de pesquisa, desenvolvimento e inovação, tanto no ambiente acadêmico quanto dentro das empresas, capaz de lidar com os desafios éticos, sociais e econômicos que surgem com a presença cada vez maior da IA no cotidiano e nas organizações.
Investir em inovação deixou de ser opcional: hoje é um dos principais motores de competitividade. Empresas que priorizam inovação conseguem reduzir custos, aumentar eficiência e abrir novas fontes de receita. Não à toa, países que mais investem em P&D, como EUA, China e Coreia do Sul, também lideram os rankings de crescimento em tecnologia.
No Brasil, o cenário ainda é desafiador. O investimento em P&D gira em torno de 1,2% do PIB, enquanto a média dos países da OCDE passa de 2,4%. Isso significa que temos um espaço enorme de crescimento, especialmente em áreas estratégicas comoIA, biotecnologia e transformação digital.

Quais são os maiores desafios na formação de profissionais para atuar com IA no país — e como superá-los?
O maior desafio não é só formar especialistas em IA — é formar profissionais que saibam aplicar IA para resolver problemas reais. E isso só acontece quando tecnologia, negócio e educação caminham juntos. Para mudar isso, precisamos ampliar o conceito de talento em IA.
Não estamos falando apenas de cientistas de dados ou engenheiros — mas também de profissionais de negócio, atendimento, marketing, produto, gestão que saibam usar IA como ferramenta estratégica. Isso exige programas de capacitação mais acessíveis, práticos e contextualizados.
Para enfrentar esses desafios, é fundamental apostar no modelo da tríplice hélice: universidades, empresas e governo atuando em conjunto. As universidades precisam atualizar seus currículos, incorporando IA de forma prática, aplicada e multidisciplinar. As empresas devem assumir um papel ativo, criando oportunidades reais de aprendizado. Já o governo tem o papel criar políticas públicas que incentivem a formação massiva, com acesso inclusivo, infraestrutura adequada e ambientes regulatórios que favoreçam a experimentação.
Quais são as principais iniciativas ou inovações em IA que sua empresa está desenvolvendo atualmente?
No Irrah Tech, nossas principais iniciativas em IA estão organizadas em três frentes estratégicas: literacia e cultura de IA com o Programa Inoove, experimentações aplicadas em negócios reais e uma estrutura sólida de governança para IA responsável.
O Inoove é nosso programa de inovação aberta e literacia em IA. Ele conecta colaboradores, especialistas e parceiros em jornadas de aprendizado e criação, com desafios práticos, mentorias e conteúdos aplicados. O objetivo é democratizar o entendimento da IA, simplificando e trabalhando a cocriação da IA com a inteligência humana.
Em paralelo, temos nossa frente de experimentações em IA, que funciona como um laboratório vivo. A partir de dores reais de clientes, conduzimos testes rápidos com agentes de IA desenvolvidos pela nossa própria plataforma no-code GPT Maker. Esses agentes ajudam desde a automação de processos até a geração de conteúdo e atendimento personalizado em suporte e vendas.
E para garantir que toda essa transformação seja sustentável e segura, estamos estruturando uma frente de governança em IA. Ela envolve diretrizes para uso ético da tecnologia, cuidado com dados, transparência e alinhamento com as melhores práticas/ Acreditamos que não basta adotar IA — é preciso fazê-lo com responsabilidade, principalmente em um cenário de uso cada vez mais intensivo.







