Contagem regressiva para a entrada em vigor do tarifaço de Donald Trump, previsto para começar nesta sexta-feira (1º). A falta de uma sinalização de um recuo por parte da Casa Branca está acendendo o alerta no setor de tecnologias. O aumento das tarifas norte-americanas sobre produtos e tecnologias brasileiras pode trazer impactos significativos para o desenvolvimento da inteligência artificial e das telecomunicações no país. A avaliação é de Daniel Sabença, fundador e CEO da Mobcall, que defende uma resposta estratégica para evitar que o Brasil se torne apenas consumidor passivo da revolução digital.
“Vivemos um momento decisivo para o desenvolvimento tecnológico no Brasil, especialmente nas áreas de inteligência artificial e telecomunicações, que são pilares da transformação digital”, afirma o executivo. No entanto, ele alerta que as tarifas impostas pelos Estados Unidos, que podem chegar a 50% em alguns casos, criam uma barreira significativa ao acesso a componentes essenciais — como servidores, chips, plataformas e APIs — comprometendo a inovação nacional.
O Brasil já enfrenta obstáculos estruturais nesse campo, desde a limitação da infraestrutura até a falta de investimentos. As tarifas elevadas tornam ainda mais difícil a aquisição de insumos críticos. Segundo estimativas divulgadas pela Financial Times, no setor aeroespacial, por exemplo, a Embraer pode ter um impacto adicional de até US$ 9 milhões por aeronave exportada.
“A imposição dessas tarifas encarece ainda mais o acesso a recursos fundamentais e prejudica a competitividade internacional das empresas brasileiras, que já operam em um mercado global cada vez mais dinâmico e exigente”, avalia Sabença.
O risco, segundo ele, é o aprofundamento da dependência tecnológica em setores estratégicos como IA, telecomunicações e infraestrutura digital. “Com custos elevados sobre tecnologias essenciais, o Brasil corre o risco de se tornar apenas um consumidor passivo da inovação global, sem capacidade de competir, escalar ou gerar soluções autônomas”, alerta.
Dados da Câmara Americana de Comércio reforçam o impacto da medida: mais de 6.500 pequenas empresas nos EUA seriam afetadas pelas tarifas, que envolvem cerca de US$ 60 bilhões em bens e serviços transacionados entre os dois países.

Três caminhos para reagir
Para o executivo, o Brasil precisa articular uma estratégia nacional de soberania tecnológica com base em três pilares: renegociação de acordos comerciais para reduzir tarifas sobre insumos críticos; fortalecimento da produção e do desenvolvimento tecnológico local, com incentivos como linhas de crédito e desoneração fiscal; e formação de alianças com blocos econômicos e países que compartilham interesses semelhantes.
“A inteligência artificial e as telecomunicações são ferramentas poderosas para inclusão, competitividade e desenvolvimento sustentável, mas dependem de um ambiente favorável para florescer”, afirma.
Sabença conclui com um alerta: “O país precisa agir rapidamente para deixar de ser apenas um usuário final da revolução digital e se tornar protagonista nessa nova era. Sem isso, estaremos condenados a repetir ciclos de atraso e dependência, perdendo oportunidades cruciais para o futuro.”






