À medida que o primeiro turno das Eleições Gerais de 2026 se aproxima, a inteligência artificial adiciona novas dimensões a um problema que já fazia parte do ambiente eleitoral: a circulação de desinformação. A diferença está na escala, na velocidade, no baixo custo e na capacidade de personalização e automação proporcionadas pelas novas ferramentas. Para Nicola Sanchez, CEO e fundador da Matrix Go, especializada em soluções e operações assistidas por IA, o avanço dos deepfakes e de sistemas capazes de produzir e adaptar conteúdos automaticamente amplia não apenas o risco de informações falsas influenciarem decisões, mas também o de gerar desconfiança sobre conteúdos verdadeiros.
Segundo Sanchez, a principal mudança provocada pela IA está na economia da produção de conteúdo. Estruturas que anteriormente exigiam equipes e infraestrutura para desenvolver diferentes versões de uma narrativa podem agora gerar milhares de materiais direcionados a públicos distintos em poucos minutos. Quando esse processo é associado a agentes capazes de acompanhar as reações do público e ajustar automaticamente a comunicação, a desinformação ganha uma capacidade de escala inédita.
“Uma estrutura que antes precisava de equipes e infraestrutura para produzir diferentes versões de uma narrativa agora pode gerar milhares de conteúdos, adaptados a públicos distintos, em poucos minutos. Quando isso é conectado a agentes capazes de monitorar reações e ajustar a comunicação automaticamente, temos uma mudança de escala importante”, afirma.
Entre os riscos mais sensíveis está o uso de deepfakes para provocar ações concretas por parte dos eleitores ou da população. Um áudio falso atribuído a uma autoridade eleitoral anunciando uma alteração no local de votação, por exemplo, poderia circular antes que sua autenticidade fosse verificada. O mesmo poderia ocorrer com um vídeo manipulado de um candidato comunicando uma desistência ou uma mensagem fraudulenta atribuída a um órgão público orientando cidadãos a realizar determinado procedimento.
Nesse cenário, existe uma assimetria entre a produção e a verificação. Um conteúdo sintético pode ser criado em poucos minutos, enquanto a apuração, autenticação e eventual desmentido podem levar horas ou até dias. O intervalo pode ser suficiente para que uma informação falsa produza efeitos antes de ser contestada.
“A ameaça não é apenas fazer as pessoas acreditarem em coisas falsas. É também fazer com que elas deixem de acreditar em qualquer coisa”, diz Sanchez. Segundo ele, se vídeos, áudios e imagens passam a ser constantemente questionados como potencialmente artificiais, até conteúdos verdadeiros podem ter sua credibilidade colocada em dúvida.
Autenticação ganha importância
Ferramentas de detecção de conteúdo sintético podem ajudar a identificar manipulações, mas, segundo o executivo, a confirmação por fontes confiáveis continua sendo uma das principais formas de resposta. Diante de um vídeo, áudio ou mensagem suspeita, a recomendação é verificar a origem do conteúdo e procurar a mesma informação em canais oficiais, em vez de confiar apenas na aparência ou no tom da mensagem.
O próprio uso da IA, porém, também pode ampliar a capacidade de resposta das instituições. Ferramentas de autenticação e rastreabilidade, identificação de campanhas coordenadas e análise automatizada de grandes volumes de informações podem ajudar a detectar ameaças e direcionar investigações.
Para Sanchez, esse cenário exige que instituições mantenham canais oficiais de referência e procedimentos rápidos de autenticação e resposta para situações de emergência. O avanço dos agentes de inteligência artificial no ciclo eleitoral, na avaliação do executivo, precisa ser acompanhado por uma evolução dos mecanismos de governança.
O objetivo, segundo ele, não deve ser impedir a automação, mas estabelecer em quais situações ela pode gerar eficiência, onde apresenta riscos e quais decisões precisam permanecer sob responsabilidade humana.
“A IA pode ampliar a capacidade institucional, mas não substituir sua legitimidade. O desafio é saber exatamente o que automatizar, até onde ir e em quais situações a decisão precisa continuar sendo humana”, finaliza Sanchez.




