A evolução da inteligência artificial generativa tende a ir além da automação de tarefas e deve provocar uma reorganização profunda do mercado de trabalho a partir de 2026. Essa é a avaliação de Gabriel Gomes de Oliveira, membro do Instituto de Engenheiros Eletricistas e Eletrônicos e professor colaborador da Faculdade de Engenharia Elétrica e de Computação (FEEC-Unicamp). Em entrevista ao IA Brasil Notícias, o especialista analisa como os modelos estão avançando na prática, quais funções devem ser transformadas ou criadas e por que o Brasil ainda precisa avançar em políticas públicas, formação técnica e governança para lidar com esse novo cenário.
Como você avalia o estágio atual dos modelos generativos e o que muda de forma prática em 2026?
Na minha visão, observamos um avanço inerente que se intensificou muito nos últimos cinco anos. Tivemos uma quebra de paradigmas fundamental com o advento do ChatGPT, o que tornou o progresso da inteligência artificial algo corriqueiro. Esse avanço se sustenta em dois pilares: primeiro, uma necessidade mundial em todos os setores da sociedade; segundo, a existência de interfaces e plataformas como Kaggle (do Google) e GitHub. Nelas, desenvolvedores criam soluções e compartilham esse conhecimento, o que propicia um avanço imediato do arcabouço da IA generativa.
De forma prática, veremos isso de maneira latente em segmentos cruciais. O setor bancário, por exemplo, que detém grande capital para investimento, focará em cibersegurança e eficiência. Além disso, veremos a modernização dos agentes; não apenas chatbots comuns, mas IAs generativas que buscam dar respostas rápidas e eliminar a necessidade da presença física na ponta do processo.
No esporte, teremos a Copa do Mundo, um evento de escala global que utilizará ferramentas de IA para proporcionar melhorias e maior eficiência.
O avanço da IA generativa tende a alterar funções existentes ou criar novas frentes profissionais? Como isso ocorrerá em 2026?
É natural que isso ocorra. A IA assumirá a automação de tarefas repetitivas. No marketing, por exemplo, já vemos IAs que criam diferentes “espelhos” de um mesmo material para plataformas como Meta, LinkedIn e Google, buscando maior assertividade e adesão. Há também um ganho de produtividade enorme em áreas jurídicas e financeiras, onde a IA faz uma análise inicial para “separar o joio do trigo”.
Além disso, estamos vivendo uma mudança de paradigma similar ao advento da computação. Isso exige uma requalificação profissional. Veremos a ascensão de novas funções, como engenheiros de Back-end e Front-end;
curadores de dados, responsáveis por organizar, limpar e gerenciar dados brutos; e especialistas em ética de IA.
Em 2026, o mercado será mais exigente. Teremos agentes de IA trabalhando de forma mais específica para o usuário final e empresas, ao mesmo tempo em que o governo e ministérios trabalharão para regular esse âmbito, especialmente em um ano que será marcado por discussões políticas e eleições.

Que tipo de qualificação será mais importante para os trabalhadores que conviverão com modelos de IA mais avançados?
O que percebo hoje, inclusive pelos relatos dos meus alunos, é que os processos seletivos mudaram. Antigamente solicitava-se apenas o certificado; hoje, as grandes marcas fazem provas exclusivas de programação “ao vivo e a cores” para testar o background prático do candidato. Não é mais apenas teoria; é prática pura.
O profissional diversificado será o mais valorizado. Ele não pode ser apenas um programador de línguas como Java, JavaScript, C, C+ ou R; ele precisa ter uma “mente ampla” para entender o processo do início ao fim. Isso inclui:
- Domínio de back-end e front-end;
- Habilidades em análise e interpretação de dados;
- Conhecimento de arcabouços éticos, governança e gerenciamento de projetos;
- Soft skills para validação.
Como muitos profissionais hoje trabalham em regime de home office, a capacidade de integração e gerenciamento de projetos em equipe será fundamental para que o grupo tenha eficiência.
Quais são os principais desafios associados à adoção acelerada da IA generativa nos próximos anos?
O principal desafio é o arcabouço ético-legal. Discute-se muito a responsabilidade: quem responde pelo que a IA faz? O desenvolvedor, quem fornece ou quem utiliza?
Um caso emblemático ocorreu com uma empresa que desenvolveu câmeras com reconhecimento facial que apresentavam um viés discriminatório, identificando certas raças ou padrões físicos como mais propensos a crimes. Isso mostra o perigo do “paradigma ético” de quem desenvolve a ferramenta.
Há também o desafio do custo e da infraestrutura. O mercado busca desesperadamente desenvolvedores e cientistas de dados. Na Unicamp, coordeno um curso de Data Science que é um dos mais procurados, recebendo demandas de interessados como a Petrobras e a Receita Federal. As empresas buscam otimização e flexibilidade, mas tudo isso exige uma cautela.

O Brasil está preparado para lidar com esse cenário de IA generativa?
Sendo direto: não. O Brasil tem características específicas; somos um país de dimensões continentais com polos tecnológicos avançados, mas com muitas regiões ainda subdesenvolvidas.
Ainda precisamos amadurecer muito em termos de políticas públicas mais eficientes. Não podemos simplesmente replicar o que a Espanha, Portugal ou França fazem. O contexto nacional é muito diferente. Vejo que o Brasil ainda está atrasado nas discussões globais.
Embora o governo tenha ações em curso, é preciso mais. É necessária uma atuação consciente com diretrizes e normativas para assegurar a ética, a qualidade e, acima de tudo, a empregabilidade no contexto geral, inclusive pensando nos profissionais de alta capacidade.
Que tipo de política pública é necessária para garantir o uso seguro, ético e eficiente dessa tecnologia?
Políticas que pensem não apenas na tecnologia, mas na população como um todo. Esse é o nosso principal contexto. O Brasil é um país diverso sob múltiplos aspectos, com perspectivas, culturas e rotinas distintas em cada região. O grande desafio brasileiro hoje é entender essa pluralidade para criar políticas mais eficientes, capazes de garantir sustentabilidade, segurança e direitos para todos os brasileiros.






