A possível imposição de tarifas de até 50% pelos Estados Unidos sobre produtos brasileiros acendeu um alerta no setor de tecnologia. Mais do que uma disputa comercial, o movimento representa um ruído sistêmico nas relações entre os dois países, com reflexos diretos sobre a inovação. Essa é a opinião de Fábio Magalhães, fundador e sócio da Ideen e da Revvo. Segundo ele, com forte presença internacional em fintechs e inteligência aplicada, o Brasil depende de plataformas, ferramentas e parcerias que circulam por uma rede global — muitas vezes conectada aos EUA. O especialista, com mais de 20 anos de experiência em soluções de tecnologia aplicadas a ambientes críticos, afirma também que a ameaça de instabilidade também atinge os projetos de infraestrutura de IA no país, que ainda dependem fortemente de equipamentos e tecnologias importadas. Magalhães considera que o momento exige cautela, revisão estratégica e preservação ativa dos canais de colaboração.
Como as tarifas dos EUA podem impactar o avanço tecnológico no Brasil?
Mais do que uma questão comercial, o risco de tarifas de até 50% impõe um ruído sistêmico nas relações de tecnologia entre Brasil e EUA, e isso tem impacto direto na inovação. A discussão vai além da competitividade de produtos físicos: envolve também a troca de conhecimento, a interoperabilidade digital e o fluxo de colaboração entre ecossistemas. O Brasil é hoje um dos principais pólos de inovação em fintechs do mundo, com empresas exportando tecnologia, APIs, produtos digitais e inteligência aplicada. Esse valor circula globalmente por meio de contratos, licenças, parcerias e acesso a plataformas globais (muitas vezes norte-americanas).
Se o ambiente institucional sinaliza incerteza, o investidor pensa duas vezes. Startups que dependem de ferramentas em nuvem, frameworks abertos ou até mesmo capital estrangeiro tendem a adiar planos. Operadores mais maduros já avaliam os riscos de represália e impacto cambial nos custos operacionais. Ou seja: além dos “produtos encarecendo”, também temos impacto na mentalidade de risco, na confiança para escalar soluções e na viabilidade de operar com fluidez em um ecossistema cada vez mais interconectado.

A taxação pode ter algum impacto nos projetos de data centers voltados para IA?
Sem dúvida. Embora muito da infraestrutura hoje seja fornecida “as a service” via nuvem, os data centers locais continuam sendo uma peça-chave no processamento de dados de IA, especialmente com o avanço de modelos maiores, que exigem latência baixa e conformidade com regulamentações locais. Provedores internacionais como Google Cloud, AWS e Microsoft já têm operações robustas no Brasil, mas uma política tarifária instável pode afetar seus planos de expansão ou alterar condições comerciais com clientes locais.
Boa parte do hardware usado em nuvem privada e ambientes on-premise ainda vem de fora. A Elea Digital, por exemplo, alertou que 92% de seus equipamentos são importados dos EUA, o que já coloca a cadeia de fornecimento em alerta. Um aumento súbito nos custos de importação pode frear ou adiar projetos de infraestrutura, aumentar o custo do processamento e dificultar o acesso à IA por empresas médias. E isso impacta diretamente a democratização da tecnologia no país.
Além disso, muitas ferramentas de desenvolvimento, modelos fundacionais e até parcerias de pesquisa em IA vêm dos EUA. Se o Brasil entra em uma zona de instabilidade comercial, essas pontes ficam mais frágeis. A consequência não é só tecnológica — é também estratégica. Corremos o risco de reduzir nossa presença na fronteira da inovação global.

Caso as negociações não avancem e a taxação efetivamente ocorra, existiria alguma alternativa para o nosso país para contornar os efeitos negativos?
O caminho do diálogo continua sendo a melhor saída. Uma solução coordenada entre os dois países permitiria que o setor de tecnologia – que tem características distintas de outros setores industriais – fosse tratado com a especificidade que merece. Afinal, estamos falando de um setor em que os fluxos de valor não são apenas logísticos, mas também digitais, intangíveis e baseados em confiança.
Caso as tarifas avancem, será fundamental que empresas brasileiras mapeiem seus riscos contratuais, reavaliem rotas de fornecimento e explorem alternativas em outras regiões, como Europa, Ásia e América Latina. Muitas organizações já operam com uma estratégia “multicloud” ou possuem hubs internacionais para mitigar riscos geopolíticos. Isso pode ganhar ainda mais tração.
Ao mesmo tempo, é essencial preservar a ponte com nossos pares americanos. O setor de tecnologia sempre foi movido por colaboração – e não rivalidade. Mantê-la ativa é também uma forma de mitigar os efeitos negativos: por meio de comunidades técnicas, projetos open source, parcerias de inovação, eventos, grupos de trabalho e acordos privados. A troca entre os dois ecossistemas é uma das mais ricas do mundo. Interrompê-la seria empobrecer a capacidade de inovação dos dois lados.






