Opinião

Telecom entra na Era Agêntica: O futuro das operações com IA já começou

Os agentes de IA deixam de ser apenas uma promessa tecnológica e passam a ocupar uma posição estratégica dentro do negócio, escreve Julianna Rojas

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Participar de grandes eventos globais de tecnologia possui um efeito particular: menos do que surpreender com grandes revelações, eles funcionam como um termômetro preciso do estágio em que o mercado se encontra. Recentemente, durante as discussões do Knowledge 2026 em Las Vegas (EUA), ficou claro algo que tenho vivenciado diariamente no contato com nossos clientes, especialmente no setor de Telecom: estamos diante de uma inflexão real. Não se trata mais de experimentar Inteligência Artificial (IA). Trata-se de aprender a orquestrá-la em escala, com governança, responsabilidade e resultados mensuráveis. 

Depois de anos concentradas em expansão de infraestrutura, massificação do 5G, crescimento da fibra óptica e digitalização da experiência do cliente, as operadoras agora começam a entrar em uma nova etapa: a construção de operações cognitivas, capazes de tomar decisões em tempo real, aprender continuamente e orquestrar processos complexos de forma autônoma. Nesse contexto, os agentes de IA deixam de ser apenas uma promessa tecnológica e passam a ocupar uma posição estratégica dentro do negócio. 

A discussão sobre IA no setor já não gira apenas em torno de produtividade pontual ou automação de tarefas repetitivas. O movimento mais relevante que acompanhamos recentemente no mercado (e que ficou evidente nas conversas globais sobre tecnologia e inovação realizadas neste ano) aponta para um novo desafio: como escalar IA de forma segura, integrada e governada. Isso significa olhar para observabilidade, compliance, gestão de risco, confiabilidade operacional e tomada de decisão assistida em ambientes cada vez mais complexos. E poucas indústrias possuem um ambiente tão propício para essa transformação quanto o Telecom. 

Estamos falando de operações que lidam diariamente com altíssimo volume de dados, necessidade de baixa latência, gestão contínua de infraestrutura crítica e jornadas digitais altamente exigentes. Não por acaso, o Telecom já aparece entre os setores mais avançados na adoção de agentes autônomos, segundo estudos recentes. Outro levantamento aponta que 48% das companhias do setor já implantaram sistemas agênticos em ao menos uma função central do negócio, a maior taxa de adoção entre todos os setores analisados, quase o dobro da média global de 26%. Hoje, os agentes começam a atuar em monitoramento inteligente de redes, manutenção preditiva, gestão de incidentes, atendimento contextualizado, automação de workflows e análise operacional em tempo real. 

Essa evolução acontece em um momento particularmente desafiador para o setor. Embora a demanda por conectividade siga crescendo impulsionada por IA, streaming, IoT e serviços digitais, a pressão sobre margens e investimentos continua elevada. 

Relatório recente projeta crescimento global moderado das telecoms até 2029, ao mesmo tempo em que aponta que 55% dos CEOs do setor acreditam que seus modelos atuais podem deixar de ser economicamente viáveis na próxima década caso não passem por reinvenção estrutural. A resposta para esse cenário passa justamente pela construção das chamadas “TelcOS”: operações telecom AI-native, sustentadas por IA, automação inteligente, dados unificados e arquiteturas orientadas à tomada de decisão contínua.

No Brasil, esse movimento ganha ainda mais relevância. O país já figura entre os maiores mercados globais de fibra óptica, acelera a expansão do 5G e mantém investimentos robustos em infraestrutura digital. Ao mesmo tempo, as operadoras convivem com desafios cada vez mais sofisticados: competição acirrada, pressão regulatória, aumento das exigências de experiência do cliente, crescimento exponencial do tráfego de dados e riscos crescentes em cibersegurança. Nesse ambiente, agentes inteligentes passam a exercer um papel fundamental não apenas na eficiência operacional, mas também na capacidade de antecipar falhas, otimizar recursos e melhorar a experiência digital do consumidor em tempo real. 

Nesse ambiente, agentes inteligentes passam a exercer um papel fundamental não apenas na eficiência operacional, mas também na capacidade de antecipar falhas, otimizar recursos e aprimorar a experiência digital do consumidor. É justamente nessa última dimensão que a hiperpersonalização ganha força.

Ao combinar dados de comportamento, histórico de interações, padrões de consumo e necessidades individuais, a IA permite que as operadoras compreendam melhor cada cliente, antecipem demandas e ofereçam soluções contextualizadas, desde planos e serviços mais adequados ao perfil de uso até a identificação preventiva de problemas de conectividade. Mais do que automatizar o atendimento, trata-se de transformar a jornada do consumidor em uma experiência proativa, fluida e personalizada, respeitando a privacidade e a proteção dos dados. 

Outro ponto importante é que a IA Agêntica muda a lógica da própria operação. Durante muitos anos, as empresas construíram estruturas voltadas para responder eventos depois que eles aconteciam. Agora, começamos a migrar para modelos preditivos e cognitivos, em que agentes não apenas executam tarefas, mas passam a participar ativamente da inteligência operacional do negócio. Isso vale para redes, atendimento, infraestrutura, segurança, operações de campo e até processos internos corporativos. O ganho não está apenas em velocidade, mas na capacidade de gerar resiliência, contexto e adaptabilidade contínua. 

Naturalmente, essa transformação também traz desafios relevantes. Muitas organizações ainda tentam encaixar IA em modelos operacionais antigos, sem redesenhar fluxos, cultura e governança. O resultado costuma ser limitado. Pesquisas recentes mostram que os maiores gargalos da adoção de IA hoje já não são tecnológicos, mas humanos e organizacionais: cultura, capacitação, liderança, clareza estratégica e adaptação dos times. 

No Telecom, isso é ainda mais sensível porque estamos falando de ambientes críticos, altamente regulados e que exigem confiança operacional permanente. Por isso, a próxima fronteira da IA não será apenas tecnológica. Ela será operacional, cultural e estratégica. A grande virada, portanto, não está em substituir pessoas, porém em redefinir a relação entre capacidade humana e autonomia inteligente. A IA entrega escala, velocidade e capacidade analítica, mas o discernimento, a visão estratégica e o direcionamento continuam sendo essencialmente humanos. Estamos consolidando a chamada Era Agêntica: um cenário em que pessoas e agentes autônomos passam a operar de forma integrada. Nas telecomunicações, isso significa criar operações mais inteligentes, resilientes e conectadas à experiência do cliente. 

Gosto de lembrar que não existe banda sem maestro. A orquestra pode ser cada vez mais poderosa, mais precisa, mais veloz, contudo, quem define o compasso, interpreta a partitura e transforma notas em emoção é o ser humano. Não haverá programação de alto impacto sem IA; e não haverá IA de alto impacto sem pessoas preparadas para conduzi-la. O diferencial competitivo no Telecom (e em qualquer setor) estará exatamente nessa convergência: na capacidade humana de transformar autonomia inteligente em estratégia, valor e evolução real para os negócios.

– Julianna Rojas é Business Vice President da GFT Technologies no Brasil

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