O Futuro da IA no Brasil

WideLabs vê o Brasil com potencial para ser referência em IA soberana na América Latina

Executiva Beatriz Ferrareto fala sobre o avanço da Amazônia IA, a importância da soberania digital e os desafios estruturais para o desenvolvimento do setor

Tempo de leitura: 5 minutos


Criadora da Amazônia IA, modelo de linguagem de grande porte (LLM) nativo em português, a WideLabs enxerga um futuro promissor para o Brasil no setor de inteligência artificial. Em entrevista exclusiva para a série “O Futuro da IA no Brasil“, a Sócia e Diretora de Desenvolvimento de Negócios da companhia, Beatriz Ferrareto, diz que o país já tem capacidade de desenvolver inteligência artificial soberana, robusta e alinhada ao contexto nacional. A executiva ressalta, porém, que o Brasil ainda precisa de instrumentos fiscais e regulatórios que facilitem a criação, o teste e a escalabilidade de serviços baseados em IA. Além disso, segundo Beatriz, o país tem fartura de talentos, mas possui dificuldade de criar oportunidades práticas e reter esses profissionais.


Como você vê o papel do Brasil no mercado global de IA hoje — e qual deve ser o peso do país nesse setor nos próximos anos?

O Brasil já demonstra sua capacidade de desenvolver inteligência artificial soberana, robusta e alinhada ao nosso contexto. Projetos como a família Amazônia IA comprovam que temos competência técnica para treinar modelos em escala nacional e, sobretudo, transformá-los em soluções aplicadas, com desempenho competitivo globalmente e já adotadas em setores estratégicos como justiça e saúde. 

Isso nos coloca em uma posição estratégica: temos dados ricos, diversidade cultural e uma demanda crescente por soluções que respeitem soberania digital, privacidade e regulação locais. Quando combinamos isso com parcerias globais e uma rede de instituições públicas que já validam tecnologia nacional, abrimos caminho para que o Brasil seja referência em IA soberana aplicada na América Latina.

Nos próximos anos, acredito que o peso do Brasil virá justamente da nossa capacidade de continuar transformando IA em valor público e impacto real, oferecendo tecnologias que não apenas seguem padrões internacionais, mas que também criam padrões a partir da nossa realidade: com dados locais, sotaque brasileiro e foco em inclusão digital.

O que ainda falta para o Brasil avançar mais nesse mercado e aproveitar plenamente as oportunidades atuais?

O Brasil tem talento e demanda, mas ainda enfrenta barreiras estruturais que precisam ser superadas para acelerar seu protagonismo em IA. Entre elas, destaco três:

  • Infraestrutura de hardware acessível: a maioria das soluções de IA exige grande volume de GPUs de alto desempenho, que hoje têm custo proibitivo. Isso obriga instituições públicas e privadas a dependerem de serviços de nuvem internacionais, sujeitos a variação de preços e disponibilidade, limitando a soberania digital do país.
  • Mecanismos de incentivo ao empreendedor e pesquisador nacional: precisamos de instrumentos fiscais e regulatórios que facilitem a criação, o teste e a escalabilidade de serviços baseados em IA no Brasil. O cenário atual ainda dificulta que pesquisadores e startups avancem da pesquisa aplicada para produtos competitivos em escala global.
  • Capital e condições para startups crescerem: muito da inovação em IA acontece no contexto de startups. No Brasil, o acesso a investimento estruturado e políticas de estímulo ainda é restrito, tornando o caminho para escalar tecnologia nacional mais lento e desigual.

Na WideLabs, conseguimos endereçar a demanda por soluções de IA ao combinar o desenvolvimento de modelos com o desenvolvimento de aplicações e consultoria especializada. Atuamos por meio de bundles completos ou da nossa fábrica de IA, o que nos permite reunir em um único pacote todas as etapas necessárias — do modelo à aplicação final — eliminando fragmentação e garantindo soberania, segurança e impacto real para nossos clientes.

Evento de lançamento da Amazônia IA em Brasília contou com a presença da ministra Luciana Santos (foto: reprodução)

Quais são os maiores desafios na formação de profissionais para atuar com IA no país — e como superá-los?

Um dos maiores desafios não é a falta de talento, mas sim a dificuldade de criar oportunidades práticas e reter esses profissionais no Brasil frente à concorrência de empresas globais. Embora o país forme excelentes especialistas em ciência de dados, engenharia e pesquisa acadêmica, ainda existe um descompasso entre a formação teórica e a aplicação em projetos de grande escala e alta complexidade.

Superar isso exige aproximação entre academia, empresas e setor público, criando um ecossistema que incentive pesquisa aplicada e coloque profissionais em contato com problemas reais de setores estratégicos. É nesse ponto que o Brasil tem uma vantagem competitiva: nossa diversidade de contextos sociais, econômicos e culturais oferece um laboratório vivo para inovação em IA.

Esse movimento já está em andamento. Parceiros globais têm ampliado programas de capacitação e acesso a tecnologias de ponta, enquanto iniciativas nacionais — como as conduzidas pela WideLabs — mostram que é possível formar especialistas dentro da própria operação, em contato direto com a pesquisa e a prática. Hoje, contamos com mestres e doutores, mas também com profissionais que começaram em posições técnicas e evoluíram em nosso ecossistema. Isso não apenas prova que o talento brasileiro, quando bem apoiado, é capaz de liderar projetos de IA soberana de impacto global, mas também garante que esse talento permaneça no país, engajado em projetos desafiadores e estratégicos, dentro de um ambiente capaz de enfrentar e resolver problemas reais.

Quais são as principais iniciativas ou inovações em IA que sua empresa está desenvolvendo atualmente?

Na WideLabs, entendemos que a inteligência artificial soberana vai muito além do desenvolvimento de modelos. Nosso trabalho se estrutura em uma fábrica de IA, que combina três dimensões: modelos proprietários, desenvolvimento de aplicações e consultoria especializada. O objetivo é entregar soluções completas, customizadas para o contexto brasileiro e latino-americano, respeitando soberania de dados e requisitos regulatórios.

Nesse ecossistema, a família Amazônia IA ocupa posição central. Ela é composta por modelos especializados que cobrem diferentes modalidades:

  • Guará, voltado ao reconhecimento e tradução de áudio em português brasileiro;
  • Harpia, modelo multimodal para análise de texto e imagem, com OCR avançado;
  • Amazônia IA (LLM), projetado para tarefas críticas de raciocínio, jurídico e programático;
  • Patagonia IA, em desenvolvimento no Chile, adaptado ao espanhol local e à realidade regulatória chilena.

Para transformar esses modelos em valor aplicado, desenvolvemos a plataforma Amazônia 360, que integra assistentes virtuais, ferramentas de leitura de documentos com RAG e painéis de governança. Essa camada permite que instituições utilizem IA de forma segura, auditável e alinhada ao seu contexto operacional, sem depender de serviços externos.

Um exemplo concreto é a colaboração com o Ministério Público do Rio Grande do Sul (MPRS). A adoção de nossas soluções resulta em maior eficiência administrativa, redução significativa nos tempos de investigação e mais precisão no encaminhamento de casos. Além da eficiência, há também impacto social relevante: ampliar o acesso à justiça para populações vulneráveis e reforçar a confiança nas instituições públicas.


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