Entrevista

IA tenta transformar organização financeira em hábito, e não apenas em informação

Para Alexandre Fischer, diretor do Grana Smart, integração de dados e inteligência artificial podem reduzir o esforço envolvido na gestão do dinheiro e aproximar o planejamento das decisões do dia a dia

Tempo de leitura: 8 minutos


Planilhas, aplicativos e extratos bancários já colocaram uma quantidade cada vez maior de informações financeiras nas mãos dos consumidores, mas ter acesso aos dados não significa necessariamente conseguir organizar as contas ou mudar hábitos. Com a expansão do Open Finance e a popularização da inteligência artificial, o desafio passa a ser transformar esse volume de informações em ações práticas, reduzindo o trabalho necessário para controlar gastos, estabelecer metas e tomar decisões sobre o dinheiro. Para Alexandre Fischer, diretor do Grana Smart, da Grana Capital, a tecnologia deve atuar como um “copiloto”, ajudando o usuário a entender sua situação financeira e agir no momento certo, mas sem substituir sua decisão.

Quais são hoje os principais desafios enfrentados pelos consumidores na organização de sua vida financeira e como o Open Finance pode contribuir para superar esse cenário?

O primeiro problema é a falta de visão. A vida financeira da maioria das pessoas está espalhada: uma conta no banco de sempre, outra numa fintech, o cartão em outro lugar, um investimento que a pessoa às vezes nem lembra que tem. Ninguém consegue organizar aquilo que não enxerga por inteiro. E as planilhas ou os apps que pedem para você anotar cada gasto na mão acabam abandonados na segunda semana, porque manter aquilo vira mais uma tarefa na lista.

O Open Finance (sistema financeiro aberto) é uma inovação regulamentada pelo Banco Central que permite o compartilhamento seguro de dados e histórico financeiro entre diferentes instituições

O Open Finance muda o ponto de partida. Em vez de pedir que a pessoa reconstrua a própria vida financeira digitando tudo, nós trazemos os dados direto das instituições, com a autorização dela, e montamos o retrato completo em poucos minutos. A pessoa passa a começar de um lugar em que já enxerga tudo junto, e a partir daí dá para falar de organização, de metas, de para onde o dinheiro está indo. Sem o Open Finance, a maior parte da energia ia embora só para juntar informação.

Com a popularização da IA, quais mudanças a Grana Capital identifica no comportamento dos consumidores e até que ponto a tecnologia pode transformar a maneira como as pessoas tomam decisões sobre seu dinheiro?

Ainda na camada de dados, a segunda grande dor da organização financeira é a categorização das transações. E a IA ajuda enormemente com esse trabalho, personalizando e automatizando tudo, com uma taxa de acerto superior a 90% (e aumentando).

Do ponto de vista dos consumidores, a mudança mais clara é de expectativa. As pessoas estão se acostumando a perguntar em linguagem natural e receber uma resposta, então elas chegam querendo conversar com o dinheiro, não estudar um gráfico. Ninguém quer mais abrir uma planilha para entender se pode ou não fazer uma compra. Quer perguntar: posso comprar isso, posso investir naquilo? Quer ser avisada ativamente quando estiver na tendência de estourar o orçamento ou lembrada quando tem que pagar uma conta.

Agora, tem um limite que nós respeitamos bastante. A IA é ótima para fazer o trabalho pesado: organizar, comparar, explicar, lembrar a pessoa das coisas na hora certa. Ela tira do usuário a parte chata e deixa a decisão mais fácil. Mas a decisão continua sendo da pessoa. Nós enxergamos a IA como copiloto, não como piloto automático.

Dinheiro é um assunto em que confiar cegamente numa resposta (inclusive humana) é perigoso, então nosso cuidado é usar a tecnologia para dar clareza e deixar a pessoa segura na hora de decidir.

Foto: rawpixel

A partir da experiência da Grana Capital, quais são os principais obstáculos para que as pessoas desenvolvam hábitos de planejamento financeiro e como a tecnologia pode ajudar a enfrentá-los?

Consigo pensar em três principais obstáculos. O primeiro é o atrito: se manter o controle dá trabalho, a pessoa desiste rápido. O segundo é que planejamento é uma recompensa que só chega lá na frente, e o cérebro quer o agora, então é difícil competir com o impulso da compra de hoje. O terceiro é vergonha. Quando as contas estão apertadas, o instinto é não olhar, e aí a pessoa se afasta justamente na hora que mais precisava se aproximar.

A tecnologia ajuda em cada um desses pontos. No atrito, automatizando o que dava trabalho, para que a organização aconteça sozinha em segundo plano. No prazo, transformando algo abstrato em coisa concreta e visível, com pequenas vitórias no caminho em vez de uma meta distante e gigante. E na vergonha, tirando o julgamento da relação. Um app não te olha torto. Ele mostra a situação como ela é e sugere o próximo passo.

Uma coisa que vimos na prática é que quando a ferramenta faz o primeiro movimento pela pessoa, deixando algo já pronto para ela, a chance de seguir em frente é muito maior do que quando pedimos para ela montar tudo do zero. O Grana Smart permite que o usuário crie tarefas e automações 100% personalizadas, mas a conta já vem por padrão com 5 automações ligadas para ajudar a controlar o dinheiro.

Quais são os principais desafios relacionados à segurança dos dados, à privacidade e à confiabilidade das orientações oferecidas por soluções de IA?

Aqui também são três problemas diferentes.

Segurança de dado é o mais óbvio: no momento que você concentra a informação financeira de alguém, você vira um alvo, e a responsabilidade sobre isso é enorme. Aqui a régua tem que ser alta em tudo, criptografia, anonimização, guardar o mínimo necessário, e o cuidado de que a autorização seja específica e reversível. A regulação do Open Finance pelo Banco Central ajuda porque padroniza o consentimento e deixa claro o que a pessoa está liberando e por quanto tempo. Também deixamos bem claro que os dados são somente leitura e que o consentimento não permite saques ou transações sem a confirmação do usuário.

Privacidade é uma questão separada e mais sutil. Ter acesso a tudo não significa que nós devamos usar tudo para qualquer coisa. A pessoa liberou o dado para ser ajudada, não para virar produto. Ser explícito sobre o que nós fazemos e o que não fazemos com aquilo é o que sustenta a relação no longo prazo.

E tem a confiabilidade da orientação, que para mim é o ponto mais delicado com IA. Um modelo consegue soar seguro enquanto está errado, e num assunto de dinheiro isso é um risco real. Por isso nós não deixamos a IA opinar solta: ela trabalha ancorada no dado real da pessoa, e nós deixamos claro o que é número concreto e o que é sugestão. Mesmo assim, o usuário continua sendo a última instância. É ele quem sabe se aquilo faz sentido na realidade dele, e essa avaliação faz parte do processo.

Vale lembrar que o Open Finance tem suas peculiaridades, principalmente na padronização e no tempo de atualização dos dados. Cada banco envia a informação de um jeito, e nós trabalhamos bastante para normalizar tudo isso, para que o que chega para o usuário seja consistente. Quando acontece algum atraso na carga de um dado, nós damos suporte direto, acionando a instituição responsável. E isso tem acontecido cada vez menos.

Foto: Divulgação/Grana Smart

Quais foram os principais aprendizados da empresa ao desenvolver uma solução voltada à gestão financeira cotidiana e quais necessidades do público ainda permanecem pouco atendidas?

O aprendizado que mais mexeu conosco foi perceber que informação não muda comportamento. Dá para construir o melhor painel do mundo e ainda assim a pessoa não mudar nada. O produto de verdade não é o dado, é o hábito, e isso é bem mais difícil de construir do que uma tela. Nós também aprendemos que as pessoas avançam quando a ferramenta faz o trabalho por elas, e não quando entregamos mais funcionalidade para elas configurarem.

Do lado do que ainda falta, o mais evidente é a parte emocional e comportamental do dinheiro, que quase ninguém endereça bem. Tem também um público grande que os produtos financeiros tratam mal, que é quem tem renda que oscila ou informal, porque quase tudo foi desenhado para quem recebe salário fixo no dia certo.

E existe também uma lacuna entre o gasto do dia a dia e o objetivo lá na frente. As pessoas conseguem ver o extrato de hoje, mas ninguém liga isso, de um jeito simples, com o “onde eu quero chegar”. Fechar essa ponte ainda é um desafio enorme.

Olhando para os próximos anos, quais avanços tecnológicos e mudanças no ecossistema financeiro brasileiro podem alterar a forma como as pessoas administram seus recursos? Quais são as prioridades da Grana Capital para acompanhar essa transformação e ampliar o acesso ao planejamento financeiro?

Para os próximos anos, vejo alguns movimentos caminhando juntos. Um é o amadurecimento do Open Finance: conforme a cobertura cresce e passa a incluir investimentos, seguros e previdência, a foto da vida financeira da pessoa fica cada vez mais completa. E a camada transacional já está permitindo iniciar pagamentos de forma cada vez mais fluida e sem atrito, direto de dentro da experiência.

Em paralelo, a IA deixa de só explicar e passa a ajudar a executar, sempre com o usuário no controle: ela prepara o caminho e deixa pronto para pessoa confirmar, sem decidir no lugar dela. Junto disso vêm novas formas de interagir com o dinheiro, como assistentes de voz e dispositivos conectados, que deixam natural resolver algo financeiro no meio da rotina.

Tem também o surgimento de modelos mais especializados, feitos para uma tarefa específica em vez de conversar sobre qualquer assunto. Recentemente foi o caso do Jev, da TypeSafe, criado por um brasileiro que veio da OpenAI: um modelo para tomar decisões e classificar informação em milissegundos, bem mais rápido e barato que um LLM tradicional. Para quem faz produto financeiro isso importa, porque boa parte do nosso trabalho é isso: categorizar transação, avaliar risco, decidir o próximo passo.

Nossas prioridades seguem essa direção. Primeiro, ativação e hábito, porque de nada adianta a tecnologia avançar se a pessoa não incorpora aquilo na rotina. Segundo, ampliar o acesso a uma boa orientação financeira, tanto para quem hoje não tem ninguém acompanhando de perto quanto colocando essa tecnologia na mão de quem já faz esse trabalho. E terceiro, preservar a confiança, que sustenta as outras duas, porque num assunto tão sensível nós só seguimos úteis enquanto formos confiáveis.

No fim, a meta é simples: que qualquer pessoa consiga cuidar bem do próprio dinheiro sem precisar virar especialista no assunto.

Tópicos desta reportagem:


Receba em seu email um resumo semanal e GRATUITO com notícias exclusivas e reportagens sobre o mercado de IA no Brasil e no mundo

Subscription Form (#4)