A inteligência artificial pode ampliar cenários, alterar épocas, criar elementos visuais e reduzir a necessidade de estruturas físicas em uma produção audiovisual. Mas, para o diretor e diretor de fotografia Jack Cotlevski, a expansão da tecnologia não elimina a importância daquilo que acontece diante da câmera. Criador do Método Cinema Híbrido, que organiza a combinação entre captação tradicional e imagens geradas por IA, Cotlevski defende que o avanço dos modelos generativos deve aumentar — e não diminuir — a importância das decisões tomadas por diretores e diretores de fotografia. Em entrevista ao IA Brasil Notícias, ele explica como o método funciona, quais elementos podem ser deixados para a inteligência artificial e por que, em um cenário no qual praticamente qualquer imagem pode ser criada, o olhar humano se torna ainda mais determinante.
Quando uma produção combina captação real e imagens geradas por IA, o que precisa necessariamente ser filmado de forma tradicional para preservar a atuação dos atores, a continuidade e a intenção do diretor?
Para mim, tudo o que carrega intenção humana e coerência física precisa ter uma base real sólida. Isso inclui a performance, a direção do olhar, o ritmo, o enquadramento, a perspectiva, o movimento de câmera, a luz e os elementos físicos que definem o produto e o ambiente. No Método Cinema Híbrido, a primeira pergunta não é “o que a IA consegue gerar?”, mas “o que esta cena não pode perder?”.
Quais elementos de uma cena podem ser deixados para a IA sem comprometer o resultado — e quais, na sua experiência, ainda geram perdas perceptíveis de qualidade ou coerência quando são totalmente gerados?
A IA funciona muito bem para extensão de cenários, alteração de época, ampliação de escala visual, criação de elementos de fundo, mudanças climáticas e transições complexas. Por outro lado, performance humana contínua, interações físicas precisas, mãos, objetos, direção de olhar, movimentos longos de câmera e detalhes de produtos ainda exigem bastante cuidado. Quando toda a cena é gerada, pequenas inconsistências de movimento, física, foco, iluminação ou continuidade podem deixar a imagem artificial.
Como o Método Cinema Híbrido muda a lógica de um set?
Principalmente por meio do planejamento. Antes de filmar, definimos o que permanecerá real, o que será ampliado ou construído posteriormente e de que maneira essas partes vão se integrar. Essa decisão influencia o enquadramento, a continuidade da iluminação, a perspectiva, a distância focal, os movimentos de câmera e a cobertura da cena. O processo é organizado em cinco etapas: Function, Record, Augmentation, Merge e Evaluation.
Você pode dar um exemplo prático de uma produção em que essa combinação entre filmagem real e IA resolveu um problema que seria difícil ou caro de solucionar pelo método tradicional?
O principal ganho está justamente na possibilidade de planejar previamente o que precisa ser construído fisicamente e o que pode ser desenvolvido posteriormente com IA. Ao separar essas funções, conseguimos preservar os elementos essenciais da filmagem e, ao mesmo tempo, ampliar ou transformar a cena sem precisar reproduzir toda a complexidade no set. Isso pode reduzir custos e viabilizar soluções visuais que seriam muito mais difíceis ou caras de executar integralmente de forma tradicional.
O avanço dos modelos generativos pode levar a uma redução da captação real ou, paradoxalmente, tornar o trabalho de direção e direção de fotografia ainda mais importante? Por quê?
As duas coisas podem acontecer. Algumas imagens exigirão menos estrutura física, mas isso aumenta a importância do critério. Quando praticamente qualquer imagem pode ser gerada, o diferencial passa a ser decidir por que ela existe, onde a câmera deveria estar, como a luz deve se comportar, o que o ator precisa transmitir e qual parte precisa ser real para que o espectador acredite nela. Quanto mais possibilidades a ferramenta oferece, maior é a necessidade de direção.






