A inteligência artificial já deixou de ser uma tendência e passou a integrar a rotina dos profissionais do Direito no Brasil. Segundo Mohara Coimbra, Legal Expert Manager do Jusbrasil, a tecnologia tem automatizado tarefas operacionais, ampliado a produtividade e permitido uma atuação mais estratégica dos advogados. Em entrevista ao IA Brasil Notícias, ela afirma que os próximos anos serão marcados pela consolidação de uma advocacia orientada por dados e automação, mas ressalta que o fator humano continuará sendo indispensável: “O futuro do Direito não será sobre substituir profissionais, mas sobre ampliar capacidades”, avaliou.
Para começar, seria importante compartilhar com nossos leitores sua visão geral sobre as oportunidades e eventuais riscos/preocupações que a IA está gerando no meio jurídico.
A inteligência artificial representa uma das maiores transformações já vistas no setor jurídico. Hoje, ela já permite automatizar tarefas repetitivas, acelerar pesquisas, organizar grandes volumes de informações e apoiar a elaboração de documentos com muito mais eficiência. Isso abre espaço para que advogados e profissionais do Direito atuem de forma mais estratégica.
Ao mesmo tempo, existem pontos importantes que precisam ser debatidos. Entre eles, estão temas como privacidade de dados, uso ético das ferramentas, transparência dos resultados gerados pela IA e a necessidade de validação humana. A IA não substitui o conhecimento jurídico ou a responsabilidade técnica do profissional. O grande desafio do mercado agora é equilibrar inovação, segurança e confiança.
Atualmente, de maneira geral, como tem sido o uso de IA pelos profissionais de Direito no Brasil?
O uso de IA no Direito brasileiro deixou de ser algo experimental e passou a fazer parte da rotina de muitos profissionais. Hoje vemos escritórios, departamentos jurídicos e profissionais autônomos utilizando ferramentas de IA para resumir processos, revisar documentos, apoiar pesquisas jurídicas, organizar fluxos de trabalho e ganhar produtividade.
Os dados do Relatório sobre o Impacto da IA no Direito, Edição 2026, reforçam esse cenário de consolidação. Segundo o estudo, 77% dos profissionais utilizam inteligência artificial generativa pelo menos uma vez por semana em suas atividades, evidenciando como a tecnologia já está integrada à rotina jurídica.
O que chama atenção é que a adoção não está restrita apenas a grandes bancas. Há um movimento bastante democrático, com profissionais de diferentes portes buscando soluções que tragam eficiência operacional e reduzam o tempo gasto em tarefas manuais. A própria amostra do relatório mostra essa diversidade: 83% dos respondentes atuam na iniciativa privada, sendo 51% de forma autônoma e 26% em escritórios de advocacia, enquanto 10% exercem funções no setor público.
O mercado jurídico brasileiro entendeu que a IA não é mais tendência futura, ela já faz parte do presente da profissão.

Como você mencionou, o Relatório de IA no Direito 2026 mostrou um quadro em que a IA já está sendo bastante usada por profissionais de Direito. A tecnologia superou a expectativa de muitos dos entrevistados na pesquisa. O que exatamente surpreendeu esses profissionais na prática?
O principal fator de surpresa foi a qualidade prática das entregas. Muitos profissionais iniciaram o uso da IA esperando apenas ganho de velocidade, mas perceberam também melhora na organização das informações, apoio na construção do raciocínio jurídico e maior capacidade de análise em menos tempo.
Outro ponto importante foi a percepção de que a IA consegue reduzir atividades operacionais extremamente desgastantes, permitindo que o profissional foque em tarefas de maior valor estratégico. Os dados do relatório mostram justamente isso: a tecnologia não está sendo vista apenas como automação, mas como uma ferramenta de apoio intelectual e produtividade.
Além disso, o estudo aponta um movimento importante de amadurecimento do mercado. O avanço da IA está diretamente ligado à qualificação profissional: 60% dos profissionais que já utilizam a tecnologia passaram por algum tipo de treinamento ou formação na área, e 82% dos usuários frequentes consideram que a capacitação em IA é urgente e um fator importante para a competitividade na carreira.
Também houve uma quebra de resistência cultural. Parte do mercado ainda enxergava a IA com desconfiança, mas a experiência prática demonstrou que, quando utilizada com supervisão humana e responsabilidade, ela pode potencializar significativamente o trabalho jurídico.

A automação de tarefas “braçaisˮ está gerando um profissional mais estratégico, com mais tempo para pensar na tese jurídica, ou um profissional com mais tempo para acumular ainda mais demandas?
Hoje vemos os dois movimentos acontecendo ao mesmo tempo. Em muitos casos, a IA tem permitido que os profissionais dediquem mais tempo à estratégia, à análise jurídica e ao relacionamento com clientes, reduzindo o desgaste operacional do dia a dia.
Por outro lado, também existe um cenário em que o ganho de produtividade aumenta naturalmente a capacidade de absorção de demandas. Isso faz com que alguns profissionais acabem assumindo mais volume de trabalho.
O ponto central é que a IA muda a lógica da atuação jurídica. O diferencial competitivo deixa de ser apenas capacidade operacional e passa a envolver pensamento crítico, estratégia, criatividade e interpretação jurídica. O profissional que souber combinar tecnologia com capacidade analítica tende a ganhar ainda mais relevância no mercado.
Esse cenário também ajuda a explicar por que a capacitação se tornou uma pauta tão importante dentro do setor. O relatório mostra que os próprios profissionais já entendem que dominar IA deixou de ser um diferencial opcional e passou a representar uma competência estratégica para acompanhar a transformação do mercado jurídico.
Há temor em relação às questões de segurança e privacidade ao compartilhar informações sensíveis com ferramentas generativas? Pode falar mais sobre?
Sim, esse é um dos principais temas discutidos atualmente no setor jurídico. O Direito trabalha diretamente com informações altamente sensíveis, estratégicas e confidenciais, então existe uma preocupação legítima sobre como esses dados são tratados dentro das plataformas de IA.
Por isso, o mercado tem avançado em discussões relacionadas à governança de dados, políticas de uso, compliance e segurança da informação. Cada vez mais, escritórios e departamentos jurídicos buscam ferramentas que ofereçam ambientes seguros, transparência sobre tratamento de dados e adequação às exigências regulatórias, incluindo a LGPD.
Também cresce a conscientização de que a adoção responsável da IA exige treinamento interno e definição clara de boas práticas. Isso se conecta diretamente aos dados do relatório, que mostram um mercado cada vez mais preocupado com qualificação e uso consciente da tecnologia. A IA precisa ser utilizada de forma segura, ética e supervisionada.

Olhando para o futuro, quais serão os próximos passos da transformação digital no Direito?
O próximo passo será a consolidação de uma advocacia cada vez mais orientada por dados, automação inteligente e integração tecnológica. A IA tende a ficar mais incorporada aos fluxos naturais de trabalho, atuando como uma camada de apoio contínuo para análise, produtividade e tomada de decisão.
Também veremos uma evolução importante na personalização das soluções jurídicas, no uso de inteligência preditiva e na integração entre tecnologia, atendimento e gestão estratégica.
Ao mesmo tempo, o fator humano continuará sendo essencial. O futuro do Direito não será sobre substituir profissionais, mas sobre ampliar capacidades. A tecnologia deve fortalecer o trabalho jurídico, tornando o setor mais eficiente, acessível e estratégico.






