Entrevista

Brasil tem potencial para liderar em IA, mas enfrenta barreiras em talento, infraestrutura e regulação

Especialista analisa os avanços do país no setor, os desafios para formar profissionais qualificados e as estratégias para transformar inovação em impacto real no mercado global

Tempo de leitura: 6 minutos


Com mais de 700 startups atuando com inteligência artificial e uma taxa de adoção superior à média global, o Brasil tem ganhado protagonismo no cenário internacional da IA. No entanto, desafios como a formação de talentos, a infraestrutura tecnológica desigual e a ausência de uma regulamentação clara ainda limitam o avanço do setor. Na entrevista desta semana da série O Futuro da IA no Brasil, nosso convidado Felipe Mendes, Head de Growth da T&D Sustentável, analisa os caminhos para o país ampliar sua influência global, os riscos de perder talentos e as estratégias necessárias para transformar potencial em liderança efetiva.


Como você vê o papel do Brasil no mercado global de IA hoje — e qual deve ser o peso do país nesse setor nos próximos anos?

Nos últimos anos, o Brasil tem demonstrado uma evolução significativa no cenário global de Inteligência Artificial, sendo hoje um dos países emergentes mais ativos na adoção dessas tecnologias. Segundo o Google, mais da metade dos brasileiros já usaram ou usam IA generativa, índice superior à média global. O ecossistema nacional é vibrante: surgiram mais de 700 startups atuando com IA em setores chave como saúde, agronegócio e educação, e grandes empresas brasileiras já colocam a inteligência artificial no centro de suas estratégias de transformação digital.

Apesar desse entusiasmo e do notável crescimento, o Brasil ainda enfrenta desafios importantes, especialmente na formação e retenção de talentos qualificados e na ampliação do acesso à infraestrutura tecnológica. Do ponto de vista regulatório, iniciativas como o Marco Legal da IA e estratégias nacionais mostram maturidade e desejo de liderar com responsabilidade e ética, algo essencial em um cenário internacional cada vez mais atento ao impacto social e às implicações éticas do avanço tecnológico.

O peso do Brasil no mercado global de IA tende a crescer nos próximos anos. A expectativa é que o setor movimente mais de 16 bilhões de dólares até 2030 no país, impulsionado pelo aumento de investimentos públicos e privados e pela combinação única de diversidade demográfica, acesso a grandes bases de dados e desafios sociais complexos prontos para serem enfrentados com tecnologia. O agronegócio brasileiro, um dos maiores do mundo, já mostra como a IA pode ser uma ferramenta de produtividade, sustentabilidade e competitividade internacional.

Se o Brasil souber unir recursos naturais, criatividade de seu ecossistema e políticas de inclusão digital, tem potencial para não ser apenas um consumidor, mas um exportador relevante de soluções de IA, principalmente para mercados em desenvolvimento de características semelhantes.

O futuro da IA no país não depende apenas da tecnologia em si, mas da capacidade de inspirar, formar e conectar pessoas em torno de um propósito: usar a inteligência artificial para promover desenvolvimento humano e social em larga escala.

O que ainda falta para o Brasil avançar mais nesse mercado e aproveitar plenamente as oportunidades atuais?

Faltam ao Brasil, principalmente, três pilares para avançar e aproveitar todo o potencial do mercado de Inteligência Artificial: formação de talentos, infraestrutura tecnológica robusta e regulamentação clara.

Primeiro, há uma carência aguda de profissionais qualificados em IA. O país pode enfrentar um déficit de mais de 500 mil especialistas em tecnologia até 2025. Sem capacitação, programas de educação contínua e retenção de talentos, o ecossistema nacional continuará dependente de soluções importadas e terá menor protagonismo em inovação. Investir massivamente na formação de jovens, fomentar parcerias com universidades e incentivar a permanência dos talentos no Brasil são passos fundamentais.

Segundo, infraestrutura tecnológica ainda é um gargalo. Muitas regiões e empresas pequenas não dispõem de redes de alta velocidade, data centers modernos ou acesso fácil a grandes volumes de dados. A democratização dessa infraestrutura é essencial para permitir que negócios de todos os portes possam inovar com IA, e também para descentralizar oportunidades fora dos grandes centros.

Por fim, falta ao Brasil uma regulamentação de IA moderna, clara e segura, que equilibre proteção de direitos individuais e incentivo à inovação. Sem marcos regulatórios definidos, empresas e pesquisadores operam sob incerteza, o que retarda investimentos e a adoção de novas soluções. Um ambiente regulatório transparente e alinhado às melhores práticas internacionais é o caminho para estimular a confiança no uso da IA e garantir seu desenvolvimento ético e sustentável.

Foto: Freepik

Quais são os maiores desafios na formação de profissionais para atuar com IA no país — e como superá-los?

Os maiores desafios na formação de profissionais para atuar com Inteligência Artificial no Brasil começam pela escassez de talentos qualificados e pela velocidade da evolução tecnológica, que muitas vezes supera a capacidade de adaptação das universidades, empresas e até dos próprios profissionais.

O país forma anualmente cerca de 53 mil profissionais de tecnologia para uma demanda projetada de 800 mil até 2025, segundo estimativas; essa lacuna só tende a aumentar se não houver mudança estrutural (de acordo com dados da unicesumar.edu.br).

Outro obstáculo relevante é a carência de infraestrutura prática: muitas instituições não contam com laboratórios modernos, softwares atualizados ou sequer conectividade adequada para que estudantes e professores possam experimentar, prototipar e inovar. Soma-se a isso a necessidade urgente de atualização dos currículos e capacitação dos educadores — poucos cursos realmente preparam os profissionais para os desafios reais do mercado em IA e muitos professores ainda têm pouco contato prático com as ferramentas e aplicações mais recentes da área.

A desigualdade de acesso à educação também é um desafio imenso: jovens de regiões menos desenvolvidas ou de menor poder aquisitivo têm menos chances de acessar conteúdos, treinamentos e experimentação em IA, perpetuando uma exclusão que reduz a diversidade e o potencial criativo do país.

Para superar esses desafios, é fundamental promover uma integração real entre universidades, setor privado e governo, investindo em capacitação contínua, atualização curricular, inclusão digital e infraestrutura. Além disso, é urgente apoiar a formação de professores, criar programas de bolsas e ampliar o acesso a ferramentas e laboratórios. Assim, o Brasil poderá formar uma nova geração de talentos em IA, preparada para inovar e impactar positivamente o mundo.

Quais são as principais iniciativas ou inovações em IA que sua empresa está desenvolvendo atualmente?

Hoje, nossa principal inovação em Inteligência Artificial começa pela estruturação de bases de conhecimento robustas, utilizando técnicas avançadas de vetorização de dados. Isso nos permite transformar documentos, registros e interações em representações numéricas inteligentes, garantindo que nossas soluções de IA acessem, compreendam e processem grandes volumes de informações de forma eficiente e com alto grau de precisão.

Sobre esses alicerces, desenvolvemos agentes de IA especializados que atuam de forma autônoma em áreas como comercial, RH, suporte ao cliente, operações e financeiro. Esses agentes potencializam tarefas como qualificação de leads, automação de processos seletivos, atendimento 24/7 a clientes e otimização operacional. O grande diferencial está na escalabilidade dessas soluções: ao se integrarem de ponta a ponta, promovem fluidez de informações entre setores, eliminam silos internos e viabilizam uma empresa mais ágil e colaborativa.

Com aprendizado contínuo a partir das próprias interações, nossos agentes de IA se adaptam ao contexto do negócio, sugerem melhorias e apoiam decisões estratégicas, criando um ambiente propício à inovação constante. O resultado é uma organização preparada para antecipar tendências, responder rapidamente ao mercado e entregar mais valor para clientes e parceiros.

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