Opinião

A consolidação dos data centers deve avançar para toda a cadeia de tecnologia

O novo mapa de fusões e aquisições na infraestrutura de inteligência artificial

Tempo de leitura: 4 minutos


O mercado brasileiro de data centers entrou em uma fase que vai além da construção de novos centros de processamento. A expansão da inteligência artificial, da computação em nuvem e da demanda por processamento está colocando a infraestrutura digital no radar de grandes investidores globais. Para o mercado de fusões e aquisições, porém, o movimento mais interessante talvez esteja apenas começando: a consolidação tende a avançar dos operadores para empresas de energia, refrigeração, engenharia, conectividade, tecnologia e serviços que sustentam essa infraestrutura.

Os negócios recentes ajudam a dimensionar essa transformação. Em abril, a I Squared Capital anunciou a aquisição da Elea Data Centers, uma das maiores plataformas do setor no Brasil, com nove data centers, mais de 300 MW em terrenos com energia garantida e mais de 1 GW de capacidade em desenvolvimento. Segundo a gestora, serão necessários mais de US$ 10 bilhões em capital para executar esse pipeline.

Esse investimento não fica restrito aos grandes operadores. Um data center depende de sistemas elétricos, transformadores, geradores, refrigeração, automação, conectividade, segurança, construção especializada e manutenção permanente. Quanto maior a expansão do setor, maior será a demanda sobre essa cadeia — e é nela que acredito que veremos uma segunda onda de M&A no Brasil.

Já existem sinais desse movimento. A francesa Legrand adquiriu participação majoritária na brasileira green4T, especializada na implantação, operação e manutenção de data centers e ambientes de missão crítica. A operação mostra que o ativo estratégico não precisa ser necessariamente o data center. Pode ser a empresa que possui tecnologia, conhecimento ou capacidade de execução indispensáveis para construí-lo e mantê-lo funcionando.

A inteligência artificial tende a acelerar esse processo. Os novos ambientes de processamento demandam mais energia e aumentam a complexidade da infraestrutura, especialmente dos sistemas elétricos e de refrigeração. Para o M&A, isso significa que a especialização passa a valer mais. Uma empresa brasileira de médio porte que domine refrigeração de alta densidade, engenharia elétrica, automação ou manutenção de ambientes críticos pode ter um valor estratégico superior ao que seu faturamento isoladamente sugere.

Quem adquire uma companhia desse tipo não compra apenas receita. Compra profissionais especializados, contratos, certificações, conhecimento acumulado, relacionamento com clientes e capacidade comprovada de executar projetos complexos. Acima de tudo, compra tempo. Desenvolver essas competências internamente pode levar anos e, em um mercado que cresce rapidamente, uma aquisição pode ser o caminho mais curto para ganhar escala ou entrar em uma nova região.

É justamente aí que vejo uma oportunidade relevante para pequenas e médias empresas brasileiras.

Normalmente, quando falamos em M&A de tecnologia, a atenção se concentra nas transações bilionárias. Mas todo grande ciclo de investimento produz efeitos sobre as empresas menores de sua cadeia. Uma companhia especializada em engenharia, refrigeração, automação ou manutenção, com contratos relevantes e profissionais difíceis de encontrar, pode rapidamente se tornar um ativo estratégico para grupos maiores.

Para uma multinacional interessada em entrar ou crescer no Brasil, comprar uma empresa local pode significar acesso imediato a clientes, equipe técnica e conhecimento de mercado que levariam anos para serem construídos organicamente. Podemos, portanto, assistir tanto à consolidação horizontal, com fornecedores adquirindo concorrentes, quanto à vertical, com grandes grupos incorporando competências estratégicas de sua cadeia.

Esse cenário também muda a forma de avaliar uma aquisição. Faturamento, margem, endividamento e geração de caixa continuam fundamentais, mas não contam toda a história. A due diligence precisa identificar onde está o valor estratégico da companhia. Para operadores de data centers, energia, contratos, capacidade instalada e futura, localização, conectividade e licenciamento são determinantes. Entre fornecedores, entram concentração de clientes, certificações, propriedade intelectual, dependência de profissionais-chave e capacidade de acompanhar o crescimento dos grandes clientes.

O crescimento acelerado também pode esconder riscos. Uma empresa pode aumentar rapidamente a receita porque depende de um único projeto ou cliente. Outra pode concentrar seu conhecimento técnico em poucos profissionais. Por isso, não basta identificar quem está crescendo. É preciso entender quais companhias possuem vantagens difíceis de reproduzir e condições de sustentar esse crescimento.

Para os empresários dessa cadeia, isso abre uma nova discussão. Empresas que nasceram como prestadoras de serviços ou fornecedoras especializadas precisam começar a pensar também em governança, estrutura de capital e valor de mercado. Crescer organicamente deixa de ser a única possibilidade. Comprar um concorrente, receber um investidor ou ser adquirido por um grupo maior passam a integrar as alternativas.

As grandes aquisições de data centers são, portanto, apenas a face mais visível de um ciclo mais amplo. Quando bilhões de dólares entram em infraestrutura digital, esse capital se espalha pela cadeia. É bastante provável que uma parte importante da próxima onda de M&A da tecnologia brasileira aconteça não entre os donos dos data centers, mas entre as empresas que tornam esses data centers possíveis.

Mary Mizuno é CEO da SOMA, plataforma de M&A e expansão de negócios com inteligência artificial

Tópicos desta reportagem:


Receba em seu email um resumo semanal e GRATUITO com notícias exclusivas e reportagens sobre o mercado de IA no Brasil e no mundo

Subscription Form (#4)