Opinião

A IA saiu do laboratório e agora está redesenhando as operações das empresas

A IA está se consolidando como um componente central da competitividade corporativa, escreve Thiago Saldanha

Tempo de leitura: 3 minutos


Durante muito tempo, a inteligência artificial ocupou um espaço quase experimental dentro das empresas. Era vista como uma tecnologia promissora, cercada por provas de conceito, projetos-piloto e iniciativas pontuais de inovação. Mas esse cenário está mudando rapidamente.

Os movimentos mais recentes do mercado deixam claro que a IA entrou na fase da operacionalização em escala. A discussão já não gira em torno de como testar a tecnologia, mas de como incorporá-la de forma estruturada aos processos, produtos e decisões que sustentam os negócios.

Um dos sinais mais evidentes dessa transformação foi observado recentemente durante o Google Cloud Next 2026. Entre os diversos anúncios apresentados, um dado chamou atenção: atualmente, cerca de 75% do código desenvolvido pelo Google já conta com apoio de inteligência artificial. Mais do que um indicador tecnológico, esse número simboliza uma mudança de paradigma. A IA deixou de ser uma ferramenta complementar para se tornar parte integrante da operação.

Essa evolução também se reflete no avanço dos chamados agentes de IA, que é a transição de uma inteligência artificial predominantemente assistiva para uma inteligência artificial operacional.

Isso significa que as organizações passam a contar com sistemas cada vez mais integrados, capazes de conectar dados, aplicações e fluxos de trabalho em uma mesma arquitetura. O foco deixa de ser a automação de tarefas isoladas e passa a ser a transformação de processos inteiros.

A escala alcançada por essas tecnologias reforça essa percepção. O volume de processamento necessário para sustentar os modelos atuais evidencia que a IA já faz parte da infraestrutura crítica das empresas mais inovadoras do mundo. Não se trata mais de uma aposta para o futuro, mas de uma capacidade competitiva do presente.

Essa mudança também altera a forma como encaramos a transformação digital. Durante anos, ela foi conduzida principalmente como uma agenda de inovação. Hoje, tornou-se uma agenda de crescimento, produtividade e eficiência operacional.

Não por acaso, o avanço da inteligência artificial tem impulsionado investimentos em infraestrutura, plataformas de dados e modernização tecnológica. Muitas empresas descobriram que, para capturar o potencial da IA, é preciso primeiro resolver desafios históricos relacionados à integração de sistemas, qualidade dos dados e atualização de ambientes legados.

O mesmo acontece com a estratégia de dados. A capacidade de gerar insights sempre foi importante, mas o diferencial competitivo passa a estar na habilidade de transformar informação em ação. Com a evolução da IA, sistemas conseguem não apenas analisar cenários, mas atuar em tempo real, apoiando decisões de forma cada vez mais autônoma.

Essa transformação também redefine o papel das pessoas dentro das organizações. Se antes grande parte do esforço humano estava concentrada na execução de tarefas, agora cresce a importância da supervisão, da orquestração e da definição estratégica. Quanto maior a autonomia dos sistemas, maior a necessidade de governança, transparência e controle.

Por isso, temas como segurança, confiabilidade e uso responsável da inteligência artificial ganham relevância crescente. A evolução tecnológica precisa caminhar lado a lado com mecanismos capazes de garantir conformidade, proteção de dados e alinhamento aos objetivos de negócio.

Para empresas que atuam em setores altamente regulados e orientados por tecnologia, como o financeiro, essa discussão é ainda mais estratégica. A IA já não é apenas uma ferramenta de eficiência. Ela está se consolidando como um componente central da competitividade corporativa.

O principal aprendizado desse momento é simples: o diferencial não está mais no acesso à tecnologia. As plataformas estão cada vez mais disponíveis e acessíveis. O verdadeiro desafio está na capacidade de transformar essas ferramentas em resultados concretos, escaláveis e sustentáveis.

A inteligência artificial deixou definitivamente o laboratório. Agora, ela ocupa um lugar cada vez mais central nas operações. E as organizações que conseguirem combinar tecnologia, dados, governança e execução terão uma vantagem significativa na construção dos negócios do futuro.

Thiago Saldanha é Diretor de IA da Evertec Brasil

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