Ensino superior & IA

Cursos de IA avançam nas universidades brasileiras, mas acesso ainda é desigual

Número de graduações salta de 4 para 27, enquanto especialistas apontam concentração regional e limitações no ensino gratuito

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A inteligência artificial passou a ocupar posição central nas escolhas acadêmicas e profissionais no Brasil. No Sisu 2026, o número de cursos de graduação ligados à área aumentou de 4 para 27, totalizando 1.496 vagas. A maior parte dessas formações foi autorizada entre novembro e dezembro de 2025, em resposta à demanda do mercado por profissionais qualificados.

“A inteligência artificial deixou de ser uma tendência futura e virou uma competência básica para o presente. O problema é que o acesso a essa formação ainda é profundamente desigual”, afirma Ana Letícia Luca, diretora de receitas da Escola da Nuvem, organização da sociedade civil que oferece capacitação gratuita em computação em nuvem e IA generativa para pessoas em situação de vulnerabilidade.

Apesar da ampliação, o acesso gratuito permanece restrito e concentrado em determinadas regiões. Em São Paulo, a UFSCar passou a ser a única universidade pública do estado com um bacharelado específico na área. Na região Norte, apenas uma instituição oferece o curso por meio do Sisu. A UFT é a única do país com bacharelado interdisciplinar em inteligência artificial, enquanto Minas Gerais reúne a maior parte das graduações disponíveis.

Para Ana Letícia, esse cenário mantém desigualdades já existentes.

“Quando apenas uma região do país concentra a maior parte das vagas e o ensino gratuito é restrito, o risco é aprofundar assimetrias que já existem no acesso à educação e ao trabalho”.

Diante desse contexto, iniciativas fora do ensino superior tradicional ganham espaço. A Escola da Nuvem oferece programas profissionalizantes gratuitos em computação em nuvem AWS e inteligência artificial generativa, com foco na inserção no mercado de trabalho. “

A universidade está se movimentando, o que é positivo, mas a velocidade do mercado é muito maior do que a capacidade de expansão do ensino superior. Por isso, modelos alternativos e gratuitos de formação são essenciais”, diz a executiva.

A procura crescente pelos cursos também indica mudança no perfil dos estudantes. Na UFG, a graduação em inteligência artificial superou medicina e se tornou a mais concorrida da instituição. Para a Escola da Nuvem, o dado reforça a necessidade de ampliar o acesso.

“A formação em inteligência artificial não pode ser privilégio de quem tem tempo, renda ou acesso a determinadas universidades. Estamos falando de uma competência essencial para gerar renda agora”, afirma Ana Letícia.

Segundo ela, o foco do debate já mudou. “A questão não é se o Brasil vai formar profissionais em IA, mas quem vai conseguir se formar. Se não houver ações coordenadas entre universidades, políticas públicas e organizações da sociedade civil, a IA corre o risco de se tornar mais um fator de exclusão, e não de desenvolvimento”, concluiu.

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