Em entrevista nesta semana, a ministra Luciana Santos informou a alteração do Plano Brasileiro de Inteligência Artificial (PBIA). Avisou que o Brasil comprará dois supercomputadores entre os dez mais potentes do mundo, um oriundo dos Estados Unidos e outro da China, pela módica quantia de R$ 2 bilhões. Os respectivos editais estão previstos para os próximos dias e aguardam decisão final do presidente. A estratégia tem três frentes declaradas: a máquina de ponta, uma encomenda tecnológica com a China e investimento em processadores de arquitetura RISC-V, com transferência de tecnologia de hardware e software prevista em contrato.
A decisão pode parecer salomônica. Se Estados Unidos e China disputam a infraestrutura da inteligência artificial, o Brasil compra dos dois. Aqui, o pano de fundo importa. Menos de um mês atrás, 29 países assinaram em Xangai o acordo que cria a Organização Mundial de Cooperação em Inteligência Artificial (WAICO), com sede na China; o Brasil está entre os fundadores. Nenhuma outra grande democracia ocidental assinou. Sete meses antes, em dezembro de 2025, o Departamento de Estado americano lançou a Pax Silica, coalizão dedicada a assegurar a cadeia do silício e reduzir dependência da China; na cúpula de junho de 2026, segundo comunicado oficial da diplomacia americana, dez novos signatários elevaram o grupo a 24, entre eles Argentina, Chile, Costa Rica, Panamá e a União Europeia. O Brasil não está nessa lista.
Mesmo assim, o Brasil vai comprar dos dois polos tecnológicos – e, ainda que os dois sejam interdependentes, eles competem fortemente pela liderança global em IA. Isso não é exatamente neutralidade, mas é, sim, uma tentativa de preservar opções em um ambiente no qual escolher cedo demais pode significar fechar portas. Para a política externa brasileira, a lógica tem precedente na busca recorrente por autonomia mediante diversificação de parceiros (e, em alguns momentos, na política externa pendular).
Em uma análise mais criteriosa, vê-se que o orçamento do PBIA diz mais do que o anúncio recente. O PBIA prevê R$ 23,03 bilhões (aproximadamente US$ 4,4 bilhões) entre 2024 e 2028. Pelo próprio documento do MCTI, os recursos vêm de fontes distintas (como crédito, recursos públicos e contrapartida de investimento privado). O gasto é distribuído em cinco eixos, e o maior deles, IA para Inovação Empresarial, tem R$ 13,79 bilhões, enquanto os temas de infraestrutura e desenvolvimento ficam com R$ 5,79 bilhões. Disso, depreende-se que o PBIA foi concebido principalmente como plano de difusão de uso, com peso menor na construção das camadas físicas. Os R$ 2 bilhões em máquinas equivalem a mais de um terço do eixo de infraestrutura originalmente previsto.
A comparação internacional ajuda a dimensionar o tamanho do esforço brasileiro. O fundo InvestAI da União Europeia pretende mobilizar € 200 bilhões, sendo €50 bi do setor público e € 150 bi de capital privado; a França anunciou € 109 bilhões em compromissos privados, nacionais e estrangeiros, para projetos de IA, com a Bpifrance prevendo mobilizar € 10 bilhões até 2029; a HUMAIN, financiada pelo fundo de investimento público da Arábia Saudita, anunciou cerca de US$ 100 bilhões. O orçamento deste ano da Coreia do Sul é de mais de US$ 7 bilhões. Do lado privado, estimativas compiladas pelo Financial Times põem o investimento de Amazon, Microsoft, Alphabet e Meta em 2026 em torno de US$ 700 bilhões.
Já circulam na imprensa e nas mídias sociais objeções legítimas ao desenho brasileiro. Comprar dos dois lados sai mais caro, fragmenta a operação e obriga a manter dois stacks separados.
Existe o risco de o país terminar com dois hardwares rivais e nenhuma etapa da cadeia, visto que ser dono da máquina não nos torna donos da nossa própria cadeia, e os chips seguem projetados e fabricados fora.
É por isso que a frente de RISC-V talvez pese mais que os dois supercomputadores; afinal, das três frentes, é a única que tenta trazer maior ênfase para o desenvolvimento de capacidade tecnológica própria. Além desse tema, quem acompanhou a suspensão administrativa, pelo governo americano, do acesso a modelos de ponta em junho deste ano entende por que a redundância se tornou mais relevante.
Os editais dirão o que o anúncio sozinho ainda não explicou; é neles que aparecerão as cláusulas de transferência de tecnologia, quem fiscaliza o cumprimento e quanto custa manter duas pilhas rodando em paralelo. Se os editais comprarem capacidade de escolher, teremos dois caminhos. Se comprarem apenas duas máquinas, teremos alcançado o menos ambicioso feito de pagar duas vezes para administrar a mesma dependência.
– Philipe Moura é professor convidado da Fundação Dom Cabral. Especialista em inteligência artificial, estratégia e geopolítica, é cofundador da Associação Brasileira de Inteligência Artificial (ABRIA), consultor de empresas e governos, palestrante e desenvolvedor de programas de capacitação em IA para lideranças públicas e privadas.






