Entrevista

Nomos mira expansão em ano eleitoral e prepara captação para acelerar operação

Startup negocia atendimento a bancadas parlamentares, amplia cobertura de redes sociais e planeja lançar conteúdo em inglês

Tempo de leitura: 6 minutos


O ano de 2026 deve marcar uma nova etapa para a Nomos, startup brasileira do grupo Arko Advice fundada por Marcelo Bissuh e especializada em monitoramento regulatório e gestão de riscos. Em meio ao calendário eleitoral, a empresa negocia o atendimento a bancadas parlamentares, prepara uma rodada de captação de investimentos até o fim do ano e avança na ampliação de sua plataforma, que reúne informações sobre os poderes Executivo e Legislativo de todo o país. Ao mesmo tempo, a companhia aposta na expansão de produtos, com o reforço do monitoramento de redes sociais e o plano de oferecer conteúdo em inglês para empresas estrangeiras com atuação no mercado brasileiro.


Poderia explicar como surgiu a empresa e como tem sido a atuação da Nomos? Poderia nos fornecer esse panorama geral?

Há cerca de quatro anos, fundei minha segunda startup, uma empresa de engenharia de dados. Basicamente, o meu trabalho consistia em coletar um grande volume de informações e transformá-las em dados estruturados para o mercado financeiro, com o objetivo de auxiliar fundos de investimento. No entanto, percebi que os dados extraídos dos relatórios financeiros nem sempre acompanhavam as tendências de alta ou baixa das empresas; parecia que faltava uma peça no quebra-cabeça. Descobri, então, que essa peça era a esfera regulatória e governamental.

Após vender essa startup, decidi que meu próximo negócio contemplaria essa área. Percebi que, embora o Brasil seja uma referência em dados públicos, o acesso às informações políticas não estava devidamente organizado. Assim nasceu a tese da Nomos. Somos uma empresa que trabalha com a mineração de dados da internet e os disponibiliza por meio de uma interface de fácil navegação.

Foto: Pedro França/Agência Senado

A empresa trabalha com o chamado “conceito de IA Vertical”. Como isso funciona na prática?

Sempre fizemos questão de trabalhar com modelos de grande escala, mas entendemos que mesmo os modelos bem treinados, como o Gemini do Google, funcionam como uma pessoa de conhecimento amplo e genérico. São ferramentas úteis, mas que trazem avisos de cautela sobre o conteúdo gerado.

Quando tratamos de decisões estratégicas e de compliance, não há margem para erros. Por isso, decidimos não utilizar uma IA horizontal, que possui uma amplitude genérica, mas sim uma IA vertical. Isso é o que chamamos de verticalizar a inteligência artificial: fazê-la concentrar-se em conhecimentos técnicos de uma vertical de assunto, em vez de olhar para um horizonte amplo de dados.

Temos obtido muito sucesso com essa estratégia. Hoje, quando comparamos nossa IA ao uso puro do Gemini, do ChatGPT ou do Claude, a nossa solução consegue realizar pesquisas e priorizar assuntos de forma muito mais consciente devido ao contexto em que é inserida.

Poderia compartilhar conosco os desafios de treinar uma inteligência artificial para um assunto tão complexo, considerando que o Brasil possui um arcabouço regulatório extremamente denso?

A política é um tema muito quente e é muito fácil cometer erros nesse assunto, pois uma mesma frase pode ser interpretada de diferentes formas. Compreendemos que toda empresa de IA passa por uma fase inicial de coleta de informações. Esse foi o nosso foco durante praticamente todo o ano de 2025. Hoje, temos 100% de cobertura das assembleias legislativas, da Câmara e do Senado.

Desenvolvemos o que chamamos de inteligência horizontal: não captamos dados apenas de fontes governamentais, mas de diversas bases. Somos a única plataforma, por exemplo, que monitora redes sociais, ouve vídeos e interpreta imagens. Se um político mencionar um termo de interesse em um vídeo, o sistema notifica o interessado. Monitoramos mais de 70 portais de notícias, além da Receita Federal e da CVM. Sem dados de qualidade, não há como treinar uma inteligência artificial, por isso dedicamos um ano inteiro à consolidação dessa base.

Nossa grande vantagem é ter como sócios fundadores a Arko Advice, que possui mais de 40 anos de experiência política. Temos um time de cientistas políticos e analistas que utilizam a ferramenta diariamente e nos ajudam no treinamento. É uma equipe treinada há décadas para eliminar vieses e entregar relatórios críticos para a tomada de decisão executiva. Não se trata apenas de tecnologia isolada; há profissionais da área garantindo que a ferramenta não se perca em interpretações errôneas.

Foto: Leopoldo Silva/Agência Senado

Como vocês enxergam a aplicação da tecnologia da Nomos nesse período de proximidade das eleições?

A Nomos nasceu voltada para o monitoramento legislativo, mas, devido à nossa inteligência horizontal, acabamos abrangendo muito mais. É interessante observar o uso criativo que nossos clientes fazem da ferramenta. Há empresas que monitoram suas marcas para saber se algum político ou portal mencionou seu nome.

O político, principalmente em ano de eleição, precisa ser “dono da pauta” para comandar a conversa e direcionar seus discursos, seja na campanha ou em debates. Para isso, ele precisa de velocidade para saber o que está em alta. Parlamentares e partidos têm usado o Sentinela para monitorar temas de interesse em vez de apenas projetos de lei específicos.

Há políticos que utilizam a ferramenta para monitorar o que está sendo dito sobre o tema para decidir como se posicionar. O fato de atendermos clientes de diferentes espectros políticos é o melhor indicador de que nossa informação é equilibrada; se conseguimos satisfazer ambos os lados, é porque a entrega é vista como neutra e equilibrada.

Como a tecnologia da Nomos lida com o desafio das fake news e garante a veracidade das informações reportadas?

O problema das fake news é a viralização de conteúdos sem a checagem correta, impulsionada pela pressa em postar. O diferencial da Nomos é a capacidade de olhar para vários lugares simultaneamente. Instruímos nossa IA para que, ao encontrar um fato replicado em vários portais, ela verifique se há alguma fonte desmentindo ou descredibilizando aquela informação. Se houver divergência, ela automaticamente baixa o grau de confiança ao reportar aquele fato.

O combate à desinformação exige leitura ampla e consulta às fontes oficiais, algo que o Sentinela faz ao ler todos os canais do governo, projetos de lei e portais de notícias de diferentes inclinações. A IA realiza esse cross-check: ela reporta o link da matéria que julga estar mais próxima do cenário neutro ou verdadeiro com base na volumetria e na consistência dos dados.

Foto: Antonio Augusto/secom/TSE

Por fim, quais são as perspectivas de crescimento para o ano de 2026 e quais novidades o mercado pode esperar da Nomos?

Este ano, embora ainda esteja em curso, já tem sido muito positivo para nós. Integramos ao nosso portfólio clientes de peso, como Mercado Livre e Nubank, além da ampliação do uso pela Caixa Econômica Federal e o ingresso de grandes escritórios de advocacia. Nossa expectativa é triplicar a base de clientes até o final do ano.

Sendo um ano eleitoral, estamos em conversas avançadas com partidos políticos para atender suas bancadas de parlamentares. Além disso, estamos nos preparando para uma rodada de captação de investimentos até o fim deste ano, visando iniciar um período de aceleração.

Do ponto de vista do produto, já lançamos um aplicativo nativo — somos pioneiros nesse setor — e estamos integrando novas redes sociais. Já monitoramos o Instagram e o X (antigo Twitter); o LinkedIn entrará ainda neste semestre e, em seguida, o YouTube, o que fortalecerá nosso monitoramento de áudio e vídeo.

Outra ambição importante é o atendimento ao público internacional que atua no Brasil. Atualmente, essas empresas estrangeiras estão desassistidas, pois não há plataformas que entreguem esse tipo de conteúdo de qualidade em inglês. Seremos os primeiros a oferecer essas informações tanto em português quanto em inglês e queremos ocupar esse espaço.

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