Opinião

IA em vendas: por que a maioria das empresas B2B está usando a ferramenta certa do jeito errado

A IA não substitui processo comercial ruim. Ela amplifica o que já existe, seja positivo ou negativo, escreve Felipe Mendes.

Tempo de leitura: 3 minutos


A promessa era tentadora. Ferramentas de inteligência artificial aplicadas a vendas chegaram ao mercado com a proposta de automatizar prospecção, personalizar abordagens em escala e aumentar a taxa de conversão sem ampliar o time comercial. Muitas empresas adotaram. Boa parte abandonou em menos de seis meses.

O fenômeno não é isolado. Dados do Gartner apontam que 65% das equipes de vendas B2B já utilizam alguma ferramenta de IA no processo comercial, mas menos de 30% conseguem integrá-la de forma efetiva à operação. A taxa de abandono entre PMEs supera 60% após o primeiro semestre de uso.

O diagnóstico que emerge desses números contraria a narrativa dominante sobre transformação digital em vendas: o problema raramente é a ferramenta. É o que existe, ou não existe, antes dela.

Amplificador, não substituto

A lógica por trás do insucesso é relativamente simples quando observada de perto. Ferramentas de IA aplicadas a vendas funcionam como amplificadores: potencializam o que já existe no processo comercial de uma empresa.

Se o processo é estruturado, com etapas claras, critérios de qualificação definidos e cadências documentadas, a IA acelera e escala. Se o processo é informal, dependente de memória individual e de improviso, a IA amplifica o caos.

Empresas que chegam à adoção de IA comercial sem ter resolvido questões mais básicas, como definir o perfil de cliente ideal, mapear as etapas do funil ou estabelecer critérios objetivos de avanço entre fases, tendem a usar as ferramentas para gerar volume sem direção. O resultado é uma operação mais movimentada e igualmente ineficiente.

Há também um componente cultural relevante. Em muitas PMEs e startups, o processo comercial foi construído em torno do talento e da intuição de uma ou duas pessoas. Não existe documentação. Não existe padrão replicável. Quando a empresa tenta implementar IA sobre essa base, descobre que não há estrutura suficiente para alimentar os modelos com dados relevantes nem para avaliar se os resultados gerados fazem sentido.

O que funciona na prática

As implementações bem-sucedidas de IA em vendas B2B compartilham uma característica comum: a tecnologia foi introduzida depois, não antes, da estruturação do processo comercial. As empresas que conseguem extrair valor real das ferramentas são aquelas que já sabem, com clareza, quem é seu cliente, qual é o caminho que ele percorre até a decisão de compra e onde estão os principais pontos de perda no funil.

Nesse cenário, a IA assume funções específicas e mensuráveis: qualificação inicial de leads com base em critérios predefinidos, personalização de mensagens de prospecção a partir de dados públicos do prospect, análise de padrões em conversas gravadas para identificar objeções recorrentes, ou priorização de oportunidades com base em sinais de intenção de compra.

Desta forma, IA não substitui processo comercial ruim. Ela amplifica o que já existe, seja positivo ou negativo.

Antes de automatizar, a empresa precisa ter uma máquina funcionando. Caso contrário, está apenas acelerando os próprios erros. Com isso, o erro mais comum são empresas pulando etapas, buscando automatizar a prospecção antes de ter clareza sobre quem prospectar, ou, até mesmo querendo usar a IA para fechar mais rápido antes de entender por que está perdendo negócios.

A ordem importa

O mercado de ferramentas de IA para vendas deve continuar crescendo nos próximos anos, impulsionado pela queda nos custos de implementação e pela maturidade crescente das plataformas disponíveis. Mas o histórico recente sugere que a adoção tecnológica, por si só, não resolve o problema estrutural que afeta grande parte das PMEs brasileiras: a ausência de um processo comercial documentado, replicável e independente de indivíduos específicos.

Para empresas que ainda operam com vendas informais e dependentes do fundador ou de um vendedor-estrela, o investimento mais relevante no curto prazo não é em tecnologia. É em processo. A IA vem depois, e quando vem sobre uma base sólida, entrega o que promete.

Felipe Mendes é Diretor comercial nacional da T&D Sustentável, greentech do segmento de “Construção Civil e Sustentabilidade

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