Opinião

SXSW revelou que o uso de Inteligência Artificial deve migrar do alerta para ação

Tadeu Barbosa aponta seus insights sobre o " evento SXSW e a nova forma de uso da Inteligência Artificial

Tempo de leitura: 3 minutos


Estive no South by Southwest (SXSW), realizado em Austin (Estados Unidos) no último mês de março. Em sete dias, acompanhei dezenas de palestras e presenciei  centenas de “conversas de corredor”. 

Constatei que o SXSW não é um evento de tecnologia. É um ponto de encontro onde o futuro se apresenta sem filtro, às vezes empolgante, às vezes perturbador e quase sempre mais próximo do que gostaríamos de admitir.

E tenho uma certeza: as empresas que ainda estão esperando para ver “como a Inteligência Artificial (IA) vai se desenvolver” já estão atrasadas.

O alerta que ninguém quer ouvir

Uma das palestras mais provocativas foi de Tristan Harris, ex-designer do Google e fundador do Center for Humane Technology, que passou anos estudando como a tecnologia molda comportamentos e não poupou críticas.

A tese dele é simples e incômoda: “já vimos esse filme antes”, pois deixamos as redes sociais moldarem a nossa democracia, a nossa atenção e a nossa saúde mental . Com a IA, o risco é o mesmo, porém em velocidade e escala incomparavelmente maiores.

Harris não é um pessimista. É alguém que acredita profundamente no potencial transformador da tecnologia e, justamente por isso, insiste que a aplicação importa tanto quanto a inovação. 

Baseado nessa insistência, reforço outra necessidade do mercado: construir a coisa certa, para o problema certo, com o propósito certo. Essa é a distinção que vai separar as empresas relevantes das obsoletas.

Humano + máquina: a soma que devemos fazer

Por sua vez, Brian Solis, pesquisador e autor referência no tema de liderança e inovação, apresentou o conceito de inteligência aumentada. Isso não significa trocar o humano pela máquina. Significa potencializar o que o humano faz de melhor com o suporte do que a máquina faz de melhor.

Na prática, vejo a importância de repensar processos inteiros e não apenas automatizar tarefas isoladas. A empresa que coloca IA em cima de “processo quebrado” só cria problema mais rápido e a transformação real começa apenas quando nos questionamos por que fazemos algo de determinada forma, antes de decidir como a tecnologia vai ajudar.

Na prática, automatizar uma tarefa isolada resolve pouco. O que transforma é repensar o processo inteiro, o que começa com uma pergunta anterior à tecnologia: por que fazemos assim? Empresa que pula essa etapa tende a errar mais rápido.

Para saber como se desenha uma empresa que a IA não consegue ultrapassar, a resposta não está na tecnologia, está na integração entre cultura, relacionamento e contexto. 

Os algoritmos replicam padrões, mas não replicam a confiança construída ao longo do tempo, nem a capacidade de ler o que um cliente precisa antes mesmo de ele saber verbalizar.

E isso não é argumento contra a automação. É um argumento a favor de saber o que proteger enquanto se automatiza.

Propósito como vantagem competitiva

A pesquisadora Jennifer Wallace trouxe um conceito que parece distante do mundo corporativo, mas não é. Mattering: a sensação de que o que fazemos importa, de que somos vistos e de que nossa contribuição tem valor real. Segundo Jennifer, as equipes com alto senso de propósito são mais resilientes, mais criativas e mais leais.

No contexto da IA, vejo que esse dado ganha peso. À medida que partes do trabalho são delegadas à máquina, faço outra pergunta que vai definir a cultura das empresas: o que sobra para o humano fazer e esse humano sente que isso importa?

A partir do SXSW, concluí que a IA não é uma ameaça nem uma solução: é uma variável que amplifica o que já existe. As empresas com estratégia clara vão usá-la para crescer. As empresas sem direção vão usá-la para acelerar a própria confusão.

O momento de agir não é quando o mercado exigir. É agora, enquanto dá para escolher como atender o mercado.

Tadeu Barbosa é head de novos negócios e inovação da CBDS

Tópicos desta reportagem:


Receba em seu email um resumo semanal e GRATUITO com notícias exclusivas e reportagens sobre o mercado de IA no Brasil e no mundo

Subscription Form (#4)