Opinião

IA no turismo: a janela de oportunidade está aberta, mas não para sempre

Luiz Moura analisa o relatório mais recente do BCG com a NYU sobre o impacto real da IA no turismo, que aponta para redução de custos operacionais e aumento de receita em hotéis,

Tempo de leitura: 4 minutos


A inteligência artificial não está se infiltrando gradualmente no setor de turismo — ela já se consolidou. E a diferença entre quem aproveita essa transformação e quem ainda hesita em começar se amplia a cada trimestre, refletindo diretamente nos resultados.

Em março de 2026, o Boston Consulting Group (BCG) publicou, em parceria com a School of Professional Studies da New York University (NYU), um relatório sobre o impacto da inteligência artificial na hotelaria global. Os dados mostram que empresas que implementaram IA em suas operações já colhem resultados concretos, mensuráveis e crescentes. Para o Brasil e a América Latina, o relatório funciona menos como notícia e mais como espelho. E o reflexo exige atenção.

Os resultados documentados pelo BCG não são projeções, mas operações em curso. Hotéis que implementaram sistemas de IA para gestão de housekeeping reduziram o tempo de rotatividade dos quartos em 20%, sincronizando equipes com padrões de check-out em tempo real. 

O Four Seasons Peninsula Papagayo, na Costa Rica, reduziu o desperdício de alimentos em aproximadamente 50% em oito meses usando ferramentas de rastreamento inteligente na cozinha. Sistemas de precificação dinâmica baseados em IA estão gerando aumentos de até 15% no RevPAR. E 37% dos viajantes já utilizam modelos de linguagem integrados a plataformas de viagem para planejar e reservar suas viagens.

A transformação também está mudando como hotéis são descobertos. Algoritmos de recomendação substituem gradualmente a lógica tradicional de busca e scroll das agências de viagem online. Nesse novo ambiente, relevância algorítmica vale mais do que visibilidade paga. Hotéis com conteúdo digital mais rico, mais integrado e mais confiável aparecem com mais frequência nas recomendações de assistentes de IA e os que não investirem nessa adequação perderão presença antes mesmo de perder receita.

Foto: aleksandarlittlewolf/Freepik

Mas vale lembrar que analisar o impacto da inteligência artificial no turismo olhando apenas para a hotelaria é subestimar a dimensão da mudança. Afinal, a transformação é setorial. Na aviação, companhias aéreas lideram o uso de IA para precificação dinâmica, manutenção preditiva de aeronaves e otimização de rotas. Algoritmos analisam em tempo real variáveis como clima, ocupação histórica, eventos locais e comportamento de reserva, ajustando tarifas com uma precisão e velocidade que nenhum processo manual consegue replicar.

Na gestão de viagens corporativas, a inteligência artificial está redefinindo o que significa controlar custos e garantir compliance. A VOLL, maior agência de viagens corporativas digital da América Latina, é um exemplo concreto dessa transformação em curso. A empresa desenvolveu agentes de IA que monitoram tarifas aéreas continuamente após a emissão das passagens. Quando o sistema identifica uma oportunidade de reemissão a custo menor, ele age automaticamente, submetendo a alteração para aprovação e gerando economias de até 30% no custo de voos. É eficiência que não depende de memória, atenção ou disponibilidade humana. Depende de dados e algoritmos que trabalham de forma contínua, independente de horário ou volume.

O relatório do BCG também traz um dado que sintetiza o desafio estrutural do setor: apenas 2,9% dos funcionários de turismo e hospitalidade possuem habilidades em inteligência artificial. Para se ter ideia, no setor de tecnologia e mídia, esse número é de 21%. Importante entender que essa não é apenas uma lacuna de talento, mas de competitividade que se aprofunda a cada ciclo de adoção.

A América Latina herda nesse debate os mesmos desafios presentes em outros aspectos da transformação digital: sistemas fragmentados que não se integram, infraestrutura de dados imatura, culturas organizacionais resistentes à automação e um ecossistema de formação profissional que ainda não incorporou a IA como competência essencial para o setor.

Quase metade dos hoteleiros globais relatam dificuldade em acessar dados operacionais críticos. Muitos passam até dois dias por semana montando relatórios manualmente. No Brasil, onde a fragmentação de sistemas é ainda mais pronunciada, esse cenário não é exceção, mas regra. E enquanto o gestor monta planilha, o mercado se move.

O Brasil tem uma das maiores infraestruturas de turismo do mundo. É o maior mercado de viagens corporativas da América Latina. Tem uma base de empresas sofisticadas, com programas de viagens complexos e demandas que rivalizam com as de qualquer mercado desenvolvido. E, ao mesmo tempo, ainda convive com processos manuais, sistemas desconectados e uma adoção de tecnologia muito abaixo do seu potencial.

O relatório do BCG também aponta que menos de 10% das empresas de hospitalidade globalmente podem ser consideradas verdadeiramente “future built”, com capacidades avançadas de IA gerando valor real. Na América Latina, esse percentual é certamente menor. E o custo de oportunidade de permanecer nesse grupo cresce a cada ano em que a adoção não avança.

Ao final do documento, o BCG traz uma pergunta direta para os líderes do setor: o que está impedindo sua organização de implementar IA hoje? E qual será o custo se seus concorrentes chegarem lá primeiro? São perguntas que valem igualmente para o mercado brasileiro e latino-americano. As empresas que agirem agora estarão definindo os padrões do setor para os próximos dez anos e construindo vantagens competitivas difíceis de replicar. A inteligência artificial no turismo é uma realidade presente que a América Latina ainda tem tempo de abraçar com protagonismo. Mas esse tempo não é infinito.

Luiz Moura é empreendedor com mais de 20 anos de atuação na interseção entre turismo e tecnologia. É cofundador e Diretor de Negócios da VOLL, plataforma mobile-first de gestão de viagens e despesas corporativas da América Latina.

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