Regulação

Votação do marco legal da IA fica para 2026 e gera repercussões no setor de tecnologia

Retirada do PL 2.338/2023 da pauta da Câmara impacta discussão do Redata; enquanto isso, especialistas criticam efeitos do texto em startups e PMEs

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Apesar da expectativa de avanço ainda em 2025, a votação do Projeto de Lei nº 2.338/2023, que estabelece o marco legal da inteligência artificial no Brasil, ficou para 2026. A matéria foi retirada da agenda da Câmara dos Deputados antes do início do recesso parlamentar, que começará na próxima terça-feira (23).

O adiamento já começa a gerar repercussões no setor de tecnologia. De acordo com a Associação das Empresas de Tecnologia da Informação e Comunicação (TIC) e de Tecnologias Digitais (Brasscom), a retirada do projeto da pauta do Congresso afeta diretamente a tramitação de outra matéria importante para o setor: o Redata (Regime Especial de Tributação para Data Centers).

Segundo a entidade, com a postergação do PL 2.338/2023, o avanço do Redata passa a depender da aprovação da Medida Provisória 1.308/2025, que instituiu o regime especial para data centers, cuja validade expira no final de fevereiro de 2026.

Na semana passada, o relator do PL 2.338/2023, deputado Aguinaldo Ribeiro (PP-PB), chegou a afirmar que esperava que a matéria fosse votada ainda em 2025. O parlamentar também mencionou que apensaria o Redata ao projeto de lei do marco legal da IA.

Para a Brasscom, o calendário legislativo está apertado. O Congresso retoma os trabalhos apenas em fevereiro, com impacto adicional do feriado de Carnaval sobre a agenda parlamentar.

“É importante instalar ainda este ano a comissão especial de avaliação do Redata no Congresso Nacional, uma vez que o recesso se encerra apenas em 2 de fevereiro, restando pouco tempo para a discussão no âmbito da comissão”, afirma Sérgio Sgobbi, diretor de Relações Institucionais da Brasscom.

Segundo o executivo, um programa estratégico de posicionamento do país no mundo digital deve ser apreciado com a devida celeridade, de modo a viabilizar a atração de investimentos e fortalecer a competitividade nacional.

Impacto em pequenas empresas e startups
Fernando Mansano, presidente da ABIACOM (foto: reprodução)

Se por um lado o adiamento do PL da IA pode trazer impactos sobre o Redata, o prazo extra para a discussão do tema pode servir para mexer em alguns dos pontos do texto.

Entidades como a Associação Brasileira de Inteligência Artificial e E-commerce (ABIACOM) pedem mudanças no projeto. A entidade encaminhou ao Congresso Nacional uma carta aberta manifestando preocupação com os efeitos do PL 2.338/2023 sobre o ambiente de negócios, especialmente para pequenas e médias empresas (PMEs).

Segundo a ABIACOM, a atual redação do projeto cria barreiras significativas à operação das empresas, com potencial de desestimular a inovação e reduzir a geração de empregos formais. A entidade destaca, em especial, os artigos 35 e 36, que instituem responsabilidade objetiva e solidária entre desenvolvedores e operadores de sistemas de IA.

De acordo com a associação, esse modelo pode expor pequenos empresários a riscos jurídicos elevados.

“Na prática, um pequeno varejista que apenas utiliza uma ferramenta de IA contratada pode ser responsabilizado integralmente por falhas tecnológicas que fogem ao seu controle. Esse risco jurídico inviabiliza o uso pelas PMEs e freia contratações”, afirma Fernando Mansano, presidente da ABIACOM.

A carta também critica as exigências de transparência previstas no texto. Para a entidade, é tecnicamente inviável exigir que empresas usuárias de IA forneçam explicações detalhadas sobre sistemas aos quais não têm acesso interno.

“O projeto ignora a realidade da cadeia de inovação global. A maioria das empresas usa IA via API, sem domínio técnico sobre sua arquitetura. Exigir transparência absoluta de quem apenas ‘aluga’ a tecnologia cria insegurança e desestimula o uso da IA no país”, acrescenta Mansano.

Diante desse cenário, a ABIACOM defende a revisão de pontos considerados críticos antes da votação do projeto. “Defendemos uma regulação que puna o mau uso, não a ferramenta ou o empreendedor. O Brasil precisa de um ambiente que estimule a tecnologia como motor de produtividade e emprego, e não de um sistema burocrático que penaliza quem quer inovar”, conclui.

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